Vivo falando que a faculdade de Jornalismo foi o lugar em que eu redescobri a minha paixão pela leitura. E uma das melhores descobertas que fiz na sala de aula foram os chamados livros-reportagem: obras não ficcionais em que uma apuração é feita detalhadamente, nos revelando realidades pesadas, assuntos intrincados ou fatos incríveis, em um texto tão minucioso que as páginas do jornal seriam muito pouco para sustentá-lo.

Ouvi muitos professores mencionarem as obras mais clássicas, de grandes nomes como Tom Wolfe ou Gay Talese, mas é super compreensível que você, leitor que nem cursa (e nem quer cursar) Jornalismo, não se empolgue pra ler essas obras em um primeiro contato com o chamado Jornalismo Literário. O fato é que as reportagens nesse estilo mudam a nossa forma de enxergar o mundo, e são bem relevantes para o amadurecimento de um leitor. Para você que já curte os clássicos do estilo ou para você que nunca leu um livro-reportagem e ficou curios@, eu separei algumas obras literárias onde a apuração jornalística pode te prender até a última página.


Spotlight: segredos revelados, pela equipe do The Boston Globe

Você já deve ter assistido ou, ao menos, escutado o burburinho provocado pelo filme, não é mesmo?! Ganhador de dois Oscars em 2016 (incluindo o de melhor filme), o longa foi adaptado do livro de mesmo nome, escrito pela equipe de repórteres do jornal The Boston Globe. A história é muito mais do que tensa: os jornalistas descobriram uma quantidade desmedida de padres que abusavam sexualmente de crianças e eram acobertados por autoridades da Igreja Católica. Diferente do filme, que mostra os conflitos e processos dos jornalistas em busca de informações, o livro traz todo o material descoberto e produzido por eles, nos deixando livres para ver o resultado de todo seu trabalho.

Todos os Homens do Presidente, por Bob Woodward e Carl Bernstein

Esse é um caso clássico do jornalismo investigativo, mas apesar de ter assistido ao filme no meu primeiro semestre na faculdade, nunca fui informada de que existia um livro sobre o caso Watergate. Na obra, os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein reconstituem a investigação feita em torno do escândalo político que levou a renúncia do então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon. Um dos casos mais marcantes quando se pensa em sem-vergonhice-política, a rede de espionagem em torno do partido democrata (adversário do partido de Nixon nas eleições) chegou a instalar escutas para descobrir suas estratégias de campanha. Os jornalistas conseguiram chamar a atenção da justiça e mostrar o envolvimento do próprio presidente na sabotagem. É um daqueles casos em que até dá orgulho de ser jornalista, mores.

Holocausto Brasileiro, por Daniela Arbex

Será que o Brasil também tem bons jornalistas produzindo livros-reportagem? Sim, o Brasil orgulhosamente tem! E as obras da mineira Daniela Arbex são boas provas disso. Nesse livro, que ganhou o prêmio Jabuti de 2014 como Melhor Livro-Reportagem, somos apresentados a uma parte da história do Brasil que não pode ser esquecida, para servir como eterno alerta: a existência de um Campo de Concentração sob a falsa aparência de hospital psiquiátrico, na cidade de Barbacena (MG), durante boa parte do século XX. Conhecido como “Colônia”, o hospital recebia pacientes sob a alegação de qualquer motivo, não necessariamente de sua condição mental. Pessoas tímidas, rejeitadas pela família, negras, pobres; mulheres que perdiam a virgindade antes do casamento ou esposas que “incomodavam” os maridos. Qualquer pessoa poderia ser internada, e era quase uma certeza de que esta nunca mais teria sua liberdade de volta: o hospital torturava seus pacientes, tratando-os de forma desumana e vendendo seus corpos às faculdades de medicina após suas mortes. Esse é o cenário exposto por Daniela na obra, e por mais que seja um relato pesadíssimo, precisa ser conhecido.

Vozes de Tchernóbil, por Svetlana Alexiévitch

Quando esse livro foi lançado no Brasil, o burburinho entre os leitores se tornou apenas um: Svetlana Alexiévitch e o quanto precisamos conhecer autores fora do eixo Estados Unidos-Inglaterra. Ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2015 (mesmo ano que foi traduzido para o português), Svetlana levou 10 anos escrevendo sobre o acidente nuclear de Tchernóbil, na Ucrânia, ao final do período soviético. Com relatos de sobreviventes da tragédia e mínima intervenção no que é contado ao leitor, a autora nos apresenta a várias vidas que foram eternamente marcadas pela explosão dos reatores na Usina de Tchernóbil. Lançada originalmente em 1997, “Vozes de Tchernóbil” já tem características de um clássico do Jornalismo Literário; no Brasil, seu lançamento abriu portas para outras obras da mesma autora que também merecem ser conhecidas, tais como “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher” e “O Fim do Homem Soviético”.

A Sangue Frio, por Truman Capote

Eu pensei em não mencionar os clássicos, porque eles já são comentados muitas e muitas vezes pela internet e fora dela, não é mesmo?! Pois é, mas eu vou ter que mencionar pelo menos um deles, de qualquer maneira.

Truman Capote não era jornalista; pelo contrário, ficou conhecido por suas obras ficcionais marcantes, como a maravilhosa história de Holly Golightly em “Bonequinha de Luxo”. Eis que, num dia qualquer, Capote leu uma pequena nota em um jornal: uma família inteira havia sido assassinada por dois criminosos, na cidade interiorana de Holcomb, que fica no estado norte-americano do Kansas. O escritor decidiu pesquisar mais e escrever um relato não ficcional sobre a tragédia. Nascia, junto com essa obra, a ideia de escrever livros sobre acontecimentos reais, com o auxílio de recursos já conhecidos na literatura ficcional. O nosso tão conhecimento Jornalismo Literário. “A Sangue Frio” acompanha não apenas o crime, mas suas consequências para a cidade e para os dois assaltantes, Perry Smith e Dick Hikcock, que são condenados à morte cinco anos depois. Essa obra é uma das mais mencionadas nos cursos de Jornalismo, mas vale a pena lê-la mesmo se você não quiser trabalhar na área.


É claro que essas foram apenas algumas indicações, e existem muitas outras histórias incríveis entre os livros-reportagens já publicados. Não se esqueça de comentar quais outras obras jornalísticas você já leu e recomenda, porque eu vou adorar conhecer mais indicações. Em um período histórico no qual os jornalistas têm uma imagem tão negativa frente ao público – seja por abandonarem seus ideais em troca de um cargo nas grandes empresas midiáticas ou por se submeterem às matérias sensacionalistas -, é extremamente válido relembrar, também, o poder benéfico do Jornalismo para expandir o nosso conhecimento e registrar a história.

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