Seja em uma obra clássica ou em outra lançada nesse mês, o que nos atrai aos romances policiais são suas tramas de mistério, crimes intrincados, fatos obscuros e enormes quebra-cabeças que demandam a participação do leitor como um segundo detetive/policial/jornalista/curioso etc. Talvez por ter noção desse senso comum e por ser uma leitora doida por suspense e bons livrinhos em estilo “whodunnit*” (Agatha Christie, te amo!), eu acabei demorando a imergir na narrativa de “A Biblioteca Elementar”. Não cometam o mesmo erro que a tia aqui, porque vale a pena abrir a mente para quebras nesse senso comum dos gêneros literários, desde que elas sejam bem propostas e bem feitas; o que é o caso da obra de Alberto Mussa, com certeza.

A história de “A Biblioteca Elementar” se passa no Largo da Carioca, em 1733. À época, poucas casas eram construídas no local e os moradores das ruas do Egito, da Vala e dos Três Cegos, onde o romance mantém o foco narrativo, eram maioria de origem cigana. Nesse cenário, uma mulher presencia, por obra do acaso, uma discussão entre dois homens que acaba com o assassinato de um deles. Essa mulher conhece os dois homens, sabe qual motivo os levou àquela discussão e decide por não delatar o que viu a ninguém. O plot já começa no momento do assassinato, e não demoram muitos capítulos até que o leitor saiba quem morreu, quem matou e quem é a mulher que observou tudo à distância. Simples assim. E sem esse mistério para amparar o enredo, a ousadia da obra é nos instigar a conhecer mais sobre os moradores do local, entendendo aos poucos as conexões entre eles e o que pode ter levado suas intrigas ao ponto de um tiro à queima-roupa.

Nessa caracterização dos personagens, aliás, não espere suavidade. A descrição é verossímil e passa longe de uma estereotipação simplista entre bons e maus. Por conta disso, confesso que não senti aquela empatia forte por ninguém, mas a partir do momento em que prezei por acompanhar os acontecimentos sem me prender afetivamente aos personagens, tudo fluiu melhor. Falando na escrita de Mussa, um dos maiores atrativos para a leitora que vos fala foi o tom bem humorado e irônico do narrador. Este é em terceira pessoa e declaradamente onisciente, levando a narração para uma conversa fluida, carregada de ironias e críticas subentendidas, no mesmo tom ácido que eu já adoro nas obras de Machado de Assis. Não que eu esteja comparando a obra de Mussa com a de Machado diretamente, porque não é a intenção aqui. Mas acredito que o autor tenha se inspirado na escrita machadiana; ao menos, essa foi a sensação que perdurou durante a minha leitura de “A Biblioteca Elementar”.

“Essa ideia – a de haver complexidade e profundeza na mente das pessoas – é uma fantasia dos que pretendem dar à humanidade um lugar de destaque na natureza: lugar que ela não tem; e não merece.” – pg. 83

Uma das características da obra de Mussa é a sustentação histórica da narrativa ficcional, e a pesquisa do autor fica perceptível quando ele narra, por exemplo, a ida de alguns personagens para Minas Gerais durante o período da Corrida do Ouro no Brasil, as riquezas adquiridas pelos traficantes de escravos em navios negreiros e a inquisição da Igreja Católica penalizando fortemente as mulheres (e deixando os homens em eterna liberdade, é claro). Essa mistura interessante de real e ficcional está presente, também, nos outros quatro livros que – junto com “A Biblioteca Elementar” – compõem o “Compêndio Mítico do Rio de Janeiro”, sendo estes: “O Trono da Rainha Jinga”, “O Senhor do Lado Esquerdo”, “A Primeira História do Mundo” e “A Hipótese Humana”. Cada uma das obras é ambientada em um século diferenteda história do Rio de Janeiro, e mesmo que as cinco formem uma sequência (estabelecida pelos períodos históricos), o próprio autor enfatiza que não há necessidade de lê-los na ordem de publicação. Você pode começar pelo quinto volume, do qual se trata essa resenha, por exemplo. 😉

Como comentei no início do texto, demorei um pouco para curtir a história e me dedicar a compreendê-la, mas confesso que foi a minha expectativa a respeito desta ser um romance policial que acabou me levando a viajar na maionese, achando que o livro seria A enquanto ele era B. O que não quer dizer que não tenha sido uma experiência interessante de leitura, mesmo porque os detalhes históricos reais em meio à trama proporcionam um charme ainda maior para a narrativa, sem contar na escrita direta ao ponto de Mussa, que dinamiza a leitura e faz tudo fluir melhor. Não vou dizer que “A Biblioteca Elementar” foi um livro favorito dentre as leituras que fiz em 2018, mas fiquei, sim, super interessada em conhecer as outras obras do autor, assim como sua abordagem histórica-ficcional de outros séculos – além do XVIII – de formação do Rio de Janeiro. É sempre interessante e enriquecedor tentar recriar o ambiente e a sociedade de um Brasil de outros tempos; e nesse sentido, fica aqui uma boa indicação de leitura.

* – Chamam-se “whodunnit” (do inglês who done it, significa “quem fez isso” ou, no caso, quem cometeu o crime) os romances policiais clássicos, como os publicados pela diva britânica Agatha Christie e por Arthur Conan Doyle, em que o plot principal gira em torno da busca por um criminoso responsável pela morte, roubo ou outro crime que dá inicio e norteia a história.

Onde Comprar:
Submarino

ISBN-13: 9788501104250 | ISBN-10: 8501104256 | Ano: 2018 | Páginas: 192 | Editora: Record

Alberto Mussa (Rio de Janeiro, 1961) é um escritor brasileiro. Sua proposta é fundir a tradição narrativa ocidental aos relatos mitológicos de outras culturas, como a afro-brasileira, a da Arábia pré-islâmica e a do Brasil indígena.

{ Esse livro foi enviado pela editora Record para resenha no blog. Em compromisso com o leitor, sempre informamos toda forma de publicidade realizada pelo blog 

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