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Já começo dizendo que esse foi um dos livros mais incômodo, intenso, dramático, denso e filosófico que já li. A relação de todos esse adjetivos juntos é estranha, eu sei, mas é o que a leitura me trouxe o tempo todo, um profundo sentimento de estranheza.

Mas calma, digo isso não num sentido negativo, pois o livro é abrangente demais pra ser taxado como “bom ou ruim”.

É preciso que fale um pouco sobre o que ele versa e em qual contexto está inserido para possa explicar o que é esse sentimento de “estranheza” com relação a obra.

Pega o café que lá vem textão.

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Publicado originalmente em 1984, A Insustentável Leveza do Ser do autor tcheco Milan Kundera. apresenta ao leitor a vida e todas as relações conflituosas, de quatro personagens: Tomas, Tereza, Sabina e Franz (na verdade são cinco, pois também temos a cadelinha Karinênin, que é bem importante na trama, principalmente no fim do livro).

A narrativa se desenvolve por volta do ano de 1968 cidade de Praga na antiga Checoslováquia (hoje República Tcheca), e perdura pela década de 70. Toda a trajetória desses personagens se mistura aos conflitos políticos da época em meio a invasão Russa.

Falando bem resumidamente sobre isso, com o fim da Segunda Guerra Mundial, muitos países europeus ficaram em situações bem difíceis. E estavam sobre a influencia da Rússia, país com regime comunista totalitário liderado na época por Stálin. E pra solidificar esse regime nos países que estavam sobre o domínio russo, instaurou-se a União Soviética.

Contra essa dominação russa Alexander Dubcek, liderou um movimento conhecido como Primavera de Praga, com o objetivo de implantar reformas políticas, uma tentativa de democratizar a Checoslováquia. É claro que essas reformas não foram bem vista pelos Soviéticos resultando na fatídica invasão onde tanques e tropas militares tomaram conta das ruas. Houve resistência, mas muitos outros buscaram uma espécie de exílio e emigram para países vizinhos.

“A invasão Russa, repitamos, não foi somente uma tragédia; foi também uma festa do ódio cuja estranha euforia ninguém jamais compreenderá.”

Esse é o cenário e por si só já reflete sobre os mais diversos aspectos: política, sociedade, leis, guerras, revoluções, etc. Mas o autor também resolve refletir sobre o indivíduo enquanto “ser” e de como nos relacionamos com nós mesmos. Eu noto também que há sempre um debate muito profundo sobre o quanto nós somos pequenos enquanto ser social, porém o quão vastos nos tornamos quando olhamos para dentro de nós mesmos, quantas camadas temos e como lidamos com isso. Enquanto revoluções políticas e toda a opressão acontecia nas ruas checas, os conflitos internos aconteciam dentro de cada personagem.

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Tomas é marido de Tereza, eles vivem numa relação infiel. Tomas ver na infidelidade, na procura do corpo e dos sexos das outras, uma forma de sentir a vida. Enquanto Tereza é a esposa submissa, dependente, ela ver em Tomas uma espécie de “salvação” e se agarra nisso como se fosse a única coisa que desse sentido a existência dela (bizarro!). Tereza tinha uma relação ruim com a mãe e apavorava-se com a ideia de se tornar ou parecer minimamente com ela. Cresceu numa vida abusiva, conheceu Tomas e viu nele a oportunidade de ser resgatada. Embora exista amor, a vida com Tomas só resignificou o abuso.

Sabina e Franz são amantes. Ela artista plástica e ele professor universitário. Eles também vivem numa relação perturbada e de infidelidade, pois Franz é casado. Sabina, para a época, era uma mulher até bem independente, vivia da sua arte e mantinha relações com diversos homens sem compromisso, inclusive ela outrora fora amante de Tomas também. Sabina era fascinada pela Traição, pelas possibilidades e consequências que isso trazia. Traia-se constantemente, afim de dá sentido a vida e as escolhas que fazia. Para ela não existia nada excitante do que isso.

“A traição. Desde nossa infância, papai e o professor nos repetem que é a coisa mais abominável que se possa conceber. Mas o que é trair? Trair é sair da ordem. Trair é sair da ordem e partir para o desconhecido. Sabina não conhece nada mais belo que partir para o desconhecido.”

Toda via, no instante que a tal traição se completava abatia sobre ela um fardo, mas não um fardo inerente ao drama do peso e sim ao da leveza, da insustentável leveza do ser.

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A personagem é uma das mais complexas e melancólicas, as grandes reflexões filosóficas sobre o drama do “fardo e da leveza” contidas no livro estão ligadas a ela, pelo menos ao meu ver. E assim como Tomas, é possível ver uma certa frustração neles mais evidentes, eles são mais parecidos em alguns questionamentos.

Já Franz era uma idealista, como o próprio autor afirma, ele era o sonhador do romance. E não foi o personagem mais marcante pra mim, apesar de interagir bastante com Sabina e ter vários aspectos interessantes.

É importante falar dos personagens dessa forma, pontuando como cada um aparece na trama, porque é preciso está atento ao que eles são e como se desenvolvem no decorrer da trama, ter uma certa conexão. Mas quando digo conectar-se com eles não significa que ter empatia, pois nem sempre acontece e é até difícil, pelo menos pra mim foi. Porém é preciso entender cada motivação, o que torna essa conexão importante para que consigamos entender as discussões abordadas.

Vi muita gente dizer que esse livro fala de amor, mas eles está longe de ser sobre isso, muito embora ele reflita sim sobre o amor nas suas mais diversas
formas de se manifestar (amor conjugal, amor adúltero, amor por uma causa, amor pela profissão, amor por animais, o amor desinteressado dos animais, o amor pelo ódio). A Insustentável leveza do Ser fala da universalidade dos sentimentos, sobretudo da universalidade do “ser”, da vastidão que compreende a alma, o corpo, a leveza e o peso.

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Uma coisa interessante sobre esse livro é que a narrativa é sempre em terceira pessoa e o autor funciona como um narrador onipresente em determinados momentos as ideias e pensamentos se confundem ali com as dos personagens. Isso não o diferencia de muitos livros, mas quando penso nos personagens e em tudo que acontece com eles, é estranho pensar que o autor possa ser “condizente”, ou possa “naturalizar” as atitudes deles ou as situações em que estão inseridos. Foi algo que me fez encarar a leitura com certo pesar. Mas em um dado momento do livro o autor, talvez consciente do que isso poderia causar nos seus leitores, diz o seguinte:

“Os personagens de meu romance são minhas próprias possibilidades, que não foram realizadas. É o que me faz amá-los, todos, e o mesmo tempo a todos temer. Uns e outros atravessam uma fronteira que me limitei apenas a contornar. O que me atrai é essa fronteira que eles atravessam (fronteira além da qual termino eu). E é somente do outro lado que começa o mistério que o romance interroga. O romance não é uma confissão do autor, mas uma exploração do que é a vida humana na armadilha que se tornou o mundo.”

Achei isso espetacular, pois embora eu não me identifique com nenhum deles, ou não “aprove” nenhum deles, eles são apenas “possibilidades” e é preciso ter cuidado ao analisar o livro e o autor de forma tão taxativa.

Mas apesar de todo esse contexto filosófico muito rico, o livro foi pra mim muito incomodo, há muito erotismo nessas relações, muita delas são trágicas, violentas e intragáveis. Não são nem de longe, relações saudáveis. Ficou até difícil de ler em algumas partes. Eu acho que essa leitura é pra ser feita com calma e com uma certa maturidade, pois fala de uma infinidade de coisas de um jeito profundo. Teve momentos que passei horas divagando sobre uma coisa dita em um parágrafo, ou mesmo em uma linha. Isso é maravilhoso, claro, mas arrastou a leitura por dias e demandou muita dedicação e tempo. Não é um livro fácil.

Pra terminar essa resenha, que mais parece um TCC, preciso dizer que a experiência literária foi uma das mais importantes e intrigantes da minha vida. Ler A Insustentável Leveza do Ser me fez atentar ainda mais para a importância do pensamento filosófico, para as sutilezas contidas nesses pensamentos, nas contradições, nas metáforas e apesar de todos os incômodos, eu recomendo demais para todos, com mais de 18, ok?! hahahah. São muitas coisas que o livro aborda e quase impossível falar tudo em uma resenha só, mas espero que tenha dado pra entender.

A Companhia das Letras está relançando os livros do Milan Kundera em capa dura com um designer muito bonito, e achei a diagramação bem confortável, só senti falta de algum texto de apoio (posfácio ou introdução), mas no geral a edição está maravilhosa.

Boa leitura!

Onde Comprar:  Amazon  – Amazon Kindle – Submarino – Americanas – Saraiva

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ISBN-13: 9788535926644 | ISBN-10: 853592664X | Ano: 2017 |  Páginas: 344 | Editora: Companhia das Letras

Milan Kundera é um autor tcheco. Nascido no seio da erudita família de classe-média do senhor Ludvik Kundera (1891-1971), um pupilo do compositor Leoš Janáček e um importante musicólogo e pianista, o cabeça da Academia Musical de Brno de 1948 à 1961. Kundera aprendeu a tocar piano com seu pai. Posteriormente, ele também estudou musicologia. Vive na França desde 1975, sendo cidadão francês desde 1980. Seus romances geralmente tratam de escolhas e decepções. Em seus livros é recorrente a crítica ao regime comunista e à posterior ocupação russa de seu país, em 1968, quando foi exilado e teve sua obra proibida na então Tchecoslováquia. Entre outros prémios, Milan Kundera recebeu, pelo conjunto da sua obra, o “Common Wealth Award” de Literatura (1981) e o “Prémio Jerusalém” (1985). Sua obra principal, “A Insustentável Leveza do Ser” ganhou em 1988 uma adaptação para o cinema, sob a direção de Philip Kaufman e com Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche e Lena Olin no elenco. Recebeu 2 indicações ao Oscar e reconhecimento mundial. Desde então Milan Kundera nunca mais autorizou a adaptação cinematográfica dos seus romances.

{ Esse livro foi enviado pela Editora Companhia das Letras para resenha no blog. Em compromisso com o leitor, sempre informamos toda forma de publicidade realizada pelo blog 

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