Deixa eu começar essa resenha te alertando de uma coisinha, que nem é spoiler: nessa obra, intitulada “A Livraria”, o que você menos vão ter são, pasmem, os livros. Mas isso não é demérito da obra, e eu já te explico por que.

Florence Green é uma viúva que busca algo em que se sinta útil, pois não quer ser lembrada apenas pelo marido que perdeu. O ano é 1959, e ela decide abrir uma livraria na pequena cidade de Hardborough, aquele tipo de lugar em que todo mundo se conhece e se cumprimenta na rua, e que até o momento nunca teve uma livraria que perdurasse. O local escolhido é uma casa abandonada há anos, acertadamente chamada de Old House (casa velha, em bom português); os espíritos e o mofo nas paredes vêm de brinde na compra. Florence coloca seu sonho e força de vontade na abertura da Livraria Old House, mesmo não sabendo muito bem como lidar com as finanças e ouvindo a chacota do gerente de seu banco, para quem os livros só servem para atrair o sono, antes de dormir.

Nessa vibe empreendedora e empoderada, Florence recebe incentivo de algumas pessoas, como sua ajudante Christine, o garoto Wally e Edmund Brundish, um senhor viúvo que nunca sai de sua casa. Mas como não estamos numa terra de unicórnios rodeados por arco-íris, a protagonista também vai descobrindo oponentes fortíssimos que não estão curtindo a ideia de ter uma livraria na cidade. A principal adversária de Florence é Violet Gamart, esposa de um general e uma espécie de socialite local. Com elegância, Violet informa a livreira de que tem interesse na Old House, para a realização de um centro de arte para os moradores. Quando Florence oferece resistência e não cede o local para a socialite, o ranço entre as duas só aumenta, e a viúva vai ter um “pequeno” problema: a senhora Gamart é uma das mulheres mais influentes de Hardborough, sendo ouvida por figurões influentes (com um sobrinho entre eles, inclusive) em seus altos cargos políticos; enquanto isso, Florence só carrega sua bondade no coração e seu empréstimo no banco.

Ao iniciar essa história, fiquei confusa pela escrita da autora. Não sabia se deveria esperar um romance cheio de críticas sociais explícitas ou por uma história da Sessão da Tarde, com suas obviedades e conclusões felizes. A edição brasileira mais atual, publicada pelo selo Bertrand Brasil da editora Record, inclui uma apresentação da obra escrita por David Nicholls (autor de “Um Dia” e “Nós”), onde ele nos conta um pouquinho sobre as questões que chamaram sua atenção no plot, situando “A Livraria” entre a vida e obra de Penelope Fitzgerald. A apresentação dada por Nicholls é muito boa, e mesmo não revelando muitos spoilers nos empolga para ler a obra. Mas dada a sutileza da escrita de Fitzgerald, as questões apontadas por Nicholls parecem não se encaixar, e só após terminar o livro eu consegui perceber o quanto a escrita de Fitzgerald é capaz de passar uma crítica forte, em um texto de leitura suave.

Florence Green é uma empreendedora, o que já é incrível para uma mulher nos anos 50, viúva e sem familiares ricos. Ela chega à cidade de Hardborough e resolve abrir uma livraria, mas vai sentindo a opinião, quase unânime, de que sua ideia vai morrer na praia porque ninguém compra livros – e nem quer comprar – por ali. Ela não se abala e monta o negócio, mesmo estando sozinha para coordenar todas as etapas do processo de montagem, estoque, finanças, vendas, marketing e etc da loja. Quando Violet Gamart manifesta interesse na Old House e recebe um NANANINANÃO da parte de Florence, ela começa a acionar seus amigos influentes e contar a triste história de que a livreira está indo contra uma ideia cultural que beneficiaria toda a cidade, bloqueando um plano tão nobre de se tornar realidade. Ówn, que dó dela!

Se você está achando que o conflito entre Florence e Violet está parecendo muito óbvio, muito “bem contra o mal” e muito chato, se liga nisso: a ideia de Fitzgerald vai além de colocar uma vilã contra uma mocinha. O esquema aqui é perceber o quanto o sobrenome Gamart, e portanto sua classe social abastada, colocam Violet acima de Florence. Ao observar os meios com que a “vilã” tenta desbancar a “mocinha” da Old House, estamos observando também o poder político e social de alguém cheio de influências, passando por cima de quem busca o sucesso com o próprio esforço. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência.

Uma das questões mais interessantes e presentes em “A Livraria” é justamente essa diferença entre as classes sociais e o poder aquisitivo desigual entre os moradores da cidade. E até onde consegui compreender, a visão política perceptível na obra era justamente a visão defendida pela autora. Mesmo estando longe de ser uma grande metrópole, a fictícia Hardborough abriga ricos e pobres, e cada um parece saber qual é seu lugar. Todos mantém um sistema em que alguns mandam e muitos obedecem, e nessa aceitação do status quo, a chegada de uma livraria – portanto, um local que vende conhecimento – é vista com estranhamento.

“É um bom livro; portanto, a senhora deve tentar vendê-lo aos habitantes de Hardborough. Não o entenderão, mas é preferível assim. Entender torna a mente preguiçosa.” – pg. 109/110

A escrita de Fitzgerald é direta, não floreia demais e não explica mais do que o necessário. Senti falta de saber mais sobre as motivações de Florence, como começou seu amor pela literatura e de onde vem tanta força de vontade para permanecer vendendo seus livros; mas o que nos falta em informações mais aprofundadas nesse sentido, sobra no desenvolvimento da Florence naquele período de sua vida. E sabe de uma coisa? O que sabemos sobre a protagonista já é suficiente para que 99% dos leitores tenha alguma empatia por ela.

Algo que me dei conta, após finalizar a leitura, é que talvez a autora tenha apenas utilizado Florence para nos colocar no ponto de vista da livreira, com a força de vontade de alguém que só depende de si para conquistar algo na vida, sem riquezas ou amigos influentes. O mote do livro não é o final feliz, mas o gosto amargo que uma enorme “puxada de tapete” deixa em qualquer sonhador. Fitzgerald não se compromete em agradar o leitor, sendo assim, não vemos crianças inocentes nem um plot twist lacrador na reta final. Vemos os acontecimentos se desenrolarem com a crueza da realidade, e somos deixados com um misto de reflexão e angústia.

Lembra que eu tinha comentado do quanto nós não vemos os livros nessa história, mesmo tendo uma livraria como foco principal? Pois essa falta de visibilidade dos livros é justamente a falta de procura por parte dos que podem adquirir mais conhecimento, e a falta de condições para quem deveria buscar esse aprendizado. A obra define seus personagens, em outras palavras, como uma divisão entre ricos estúpidos e pobres resignados; ambos os públicos poderiam ganhar muito com o acesso a boas leituras, mas uns não fazem nenhuma questão de “forçar a mente” e outros nem sabem que deveriam correr atrás de perspectivas para mudar de vida. A falta de protagonismo dos livros, nessa história, mostra o quanto a cultura é desprezada, mesmo sendo uma fonte poderosa de educação e evolução humana. Tudo isso porque os que têm status e poder não querem ser contestados, e qualquer pessoa que abrir a mente para a leitura vai acabar, cedo ou tarde, questionando essa disparidade social entre as classes. Não sei se foi a intenção da autora, mas vi nesse livro um enorme alerta para a importância da leitura e do pensamento crítico, seja para qualquer classe social ou grau de conhecimento.

Além de ler o livro, vale dar uma chance para a adaptação cinematográfica dirigida por Isabel Coixet. Lançado em 2017 com Emily Mortimer no papel de Florence Green, o filme de “A Livraria” foi indicado a 11 prêmios Goya, levando três estatuetas (de Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Filme). A fotografia do filme é realmente linda, e pelo trailer, me parece ter sido uma adaptação relativamente fiel ao livro.

Penelope Fitzgerald, infelizmente falecida desde 2000, começou a escrever romances aos 60 anos de idade, motivada pelo desejo de entreter o marido, Desmond Fitzgerald, já adoecido pela doença que o levaria a morte. E antes que você cometa a mesma gafe que eu, já vou avisando que a autora não tinha nada a ver com Francis Scott Fitzgerald. Nem com a Zelda. Pois é. Mas voltando à Penelope, é interessante saber que cada um de seus livros expunha um pouco de suas convicções e/ou vivências. Não tive a oportunidade (ainda) de ler outras obras dessa autora, mas já foi uma delícia conhecer a forma irônica, sutil e atrevida com que ela expõe questões sociais a serem refletidas, mesmo que o leitor nem se dê conta disso à primeira vista.

Onde Comprar:
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ISBN-13: 9788528622829 | ISBN-10: 8528622827 | Ano: 2018 | Páginas: 160 | Editora: Bertrand Brasil

Penelope Fitzgerald foi uma romancista inglesa, poeta, ensaísta e biógrafa. Em 2008, o The Times incluiu-a em uma lista de “Os 50 maiores escritores britânicos desde 1945”. Em 2012, The Observer nomeou seu último romance, The Blue Flower, como um dos “dez melhores romances históricos”. Ela foi educada em Wycombe Abbey e Somerville College, na universidade de Oxford, onde se graduou em 1938 com um primeiro congratulatório.

{ Esse livro foi enviado pela editora Bertrand Brasil para resenha no blog. Em compromisso com o leitor, sempre informamos toda forma de publicidade realizada pelo blog 

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