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A mãe de todas as perguntas, de Rebecca Solnit

A mãe de todas as perguntas, de Rebecca Solnit

A resenha hoje é de um daqueles livros que antes de começarmos a ler já se sabemos que vamos gostar.

Um lançamento poderoso da Companhia das Letras desse ano, A Mãe de Todas as Perguntas: Reflexões sobre os novos feminismos da Rebecca Solnit, uma das maiores vozes feministas atualmente, autora do famigerado Os homens explicam tudo para mim, que deu origem ao termo  “mansplaining” e que revolucionou o vocabulário das discussões sobre gênero.

Ativista e militante dos direitos humanos, mais uma vez ela usa sua voz com doses de bom humor e reúne nesta edição doze ensaios que discutem temas fundamentais à realidade da mulher hoje, como desigualdade no espaço de trabalho, a cultura do estupro, o silenciamento feminino e a imposição da maternidade.

Ela inicia com o ensaio que dá nome ao livro e debate sobre um episódio em que ela deu uma palestra sobre a Virginia Woolf onde alguém da plateia levantou a questão sobre a Virginia não ter tido filhos. Com base nisso ela desencadeia uma importante reflexão acerca da maternidade e de como nós mulheres ainda somos cobradas e impostas a essa condição. Ela também discorre sobre a dificuldade que a sociedade machista tem de lidar com mulheres poderosas, que tomam as rédeas da própria vida e fazem as próprias escolhas.

“Não sou dogmática contra ter filhos. (…) Há pessoas que querem ter filhos, mas não os têm por várias razões pessoais, médicas, emocionais, financeiras, profissionais; outras não querem, e ninguém tem nada a ver com isso.

(…) Recebemos fórmulas padronizadas a torto e a direito, mas essas fórmulas costumam falhar. Apesar disso continuamos a recebê-las. E outra vez. E mais uma. Convertem-se em prisões e castigos; a prisão imaginária acorrenta muita gente na prisão da vida que segue as receitas À risca, e mesmo assim é tremendamente infeliz.”

Ou seja, ser mulher não é ser uma coisa só, não existe um molde, um manual. Nós somos muitas e queremos coisas diferentes.

Depois desse artigo que dá nome ao livro, ela separa o restante em duas seções. Na primeira parte ela reflete sobre o silenciamento feminino, contando “Uma Breve História do Silêncio” e falando sobre todos os tipos de clausura que fomos submetidas ao longo da história e como o feminismo ajudou e está ajudando a romper essas barreiras de silenciamento e opressão.

Na segunda parte, depois de “romper a barreira do silêncio”, os ensaios discorrem sobre a ideia patriarcal da família, dos valores conservadores. Das estatísticas de estupro no escopo familiar e educacional. E  sobre a mulher enquanto ser social. Celebrando o avanço e conquistas feministas, mas abrindo os olhos para o que ainda precisa ser mudado.

Embora os textos deste livro descrevem situações, vivências e discuta sobre

costumes muitos específicos da realidade americana, o debate sobre o feminismo é sempre muito universal. São textos breves, com uma narrativa simples e direta, e como falei, por vezes é dosada com um humor ácido, o que torna a leitura mais leve e super rápida.

Nos ensaios “Oitenta livros que nenhuma mulher deveria ler” e “Os homens me explicam Lolita”, a autora levanta duas questões muito interessantes no tocante que se refere à Literatura e a Arte. Esse primeiro ensaio que citei é na verdade uma resposta ao outro ensaio de uma revista, na qual havia uma lista com 80 livros que todos os homens deveriam ler onde os 79 deles eram escritos por homens. Ela define a lista como “um lembrete do que é uma revista masculina e que, se agora há muitos jovens rejeitando o binarismo de gênero,  eles estão se revoltado contra gente em posição mais sólida, que constrói o gênero como uma Cortina de Ferro dividindo a humanidade. E lança a pergunta: “Os homens devem ler livros diferentes dos das mulheres?

O debate explora o pensamento de que a literatura escrita por homens é automaticamente tida como absoluta. Já a escrita por mulheres é “coisa de mulher”. Daí ela dá várias opiniões sobre escritores famosos e considerados indispensáveis, mas que estão na lista de Não Leitura dela, e é divertidíssimo ler o que ela acha do Bukowski, por exemplo, ou do Henry Miller, do Hemingway e de alguns outros.

No ensaio seguinte, onde ela fala sobre o icônico Lolita do Nabokov, ela lança luz sobre como a Arte molda o mundo. E como nós somos moldados pela cultura. Muito se fala que ao longo da leitura nós acabamos por nos empatizar com o HH, e Rebecca chama atenção para a sua identificação com Lolita porque, segundo ela, o livro em resumo é um romance sobre um velho que  violenta uma menina frágil vezes e mais vezes.

Alguns homens que ela chamou de “instrutores voluntários” a criticaram e acusaram-na de censurar o livro, e afirmando que ela o tinha entendido errado e não compreendia a verdade básica da arte. E  mais outras baboseiras do tipo. Ao problematizar Lolita ela questiona homens estuprando meninas como tema

literário e isso ser visto como uma alegoria da Arte. Esquecendo que a Arte “ela é sempre ideológica, e forma o mundo em que vivemos”.

Eu compartilho muito desse pensamento dela, não só a respeito de Lolita, mas da Arte como ideologia e como influência direta na nossa cultura.

A mãe de todas as perguntas é um livro com uma argumentação consistente, bastante acessível e perfeito pra nós feministas ampliamos conhecimento e enxergar novos debates, e pra quem se interessa pela temática, ou quem quer começar a entender a importância do feminismo.

“(…)A grande e experiência feminista de refazer o mundo refazendo nossas ideias de gênero e instigando quem tem o direito de romper o silêncio tem tido imenso sucesso e ainda continua extremamente incompleta. Desfazer as estruturas sociais de milênios não é obra de uma geração ou de algumas décadas, mas um processo de criação e destruição de escala épica e execução muitas vezes encarniçada. É um trabalho que envolve os mais ínfimos gestos e contatos cotidianos, a transformação das leis, das convicções, da política e da cultura em escala nacional e internacional; muitas vezes tal transformação surge do impacto cumulativo de gestos mínimos.

A tarefa de chamar as coisas pelos seus verdadeiros nomes, de contar a verdade da melhor forma possível, de saber como chegamos aqui, de ouvir especialmente os que foram silenciados no passado, de ver como inúmeras histórias se encaixam e se separam, de usar qualquer privilégio que possamos ter recebido para acabar com os privilégios ou para ampliar seu escopo, tudo isso é tarefa nossa. É assim que construímos o mundo.”

Amém Rebecca Solnit!

Onde Comprar:
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ISBN-13: 9788535929614 | ISBN-10: 8535929614 | Ano: 2017 | Páginas: 200 | Editora: Companhia das Letras

Rebecca Solnit (Bridgeport, 24 de junho de 1961) é uma escritora estadunidense. Em suas obras, aborda vários temas, como ambiente, política, localização e artes. Solnit é uma colaboradora da Harper’s Magazine, em que escreve, bimestralmente, o artigo “Easy Chair”. Acabou levando o crédito pela criação do termo “mansplaining”, devido ao seu livro ”Os Homens Explicam Tudo Para Mim”.

{ Esse livro foi enviado pela editora Companhia das Letras para resenha no blog. Em compromisso com o leitor, sempre informamos toda forma de publicidade realizada pelo blog 

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