“Não quero lhe falar
Meu grande amor
Das coisas que aprendi
Nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo

“Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa

Por isso cuidado, meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado pra nós
Que somos jovens

Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço
O seu lábio e a sua voz
Você me pergunta

(…)

Já faz tempo
Eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança
É o quadro que dói mais

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais”

Embalados pelo som e a letra da música de Belchior, interpretada por uma das maiores vozes da música brasileira, a saudosa Elis Regina, eu começo essa resenha hoje.

E escolhi começar com ela não por ser apenas uma belíssima e forte canção mas por se aproximar bastante da vida e da história dos personagens desse livro.

Em “A noite da espera”, o primeiro volume dessa trilogia, nós conhecemo Martim, um jovem Paulista que muda-se para Brasília junto do pai depois do difícil divórcio com a mãe. A trama se inicia por volta do ano de 1968 e é quando o Martim chega à cidade recém-inaugurada e onde a Ditadura Militar está a plenos vapores. Sem a presença da mãe e com o distanciamento do pai, Martim faz amizade com um grupo de estudantes da sua idade. São filhos de funcionários da burocracia estatal, moradores das cidades-satélites que eram espaços destinados aos pioneiros da cidades e migrantes desfavorecidos. (É bem enriquecedora a contextualização que o autor dá a formação da cidade e de como foi sendo povoada, isso ajuda muito a “visualizar” o cenário proposto.)

Pela convivência com esse grupo de estudantes e artistas amadores, ele acaba conhecendo novas culturas, costumes e as primeiras experiências amorosas vão surgindo. O grupo é idealista e militante. Encenam peças que criticam a política e a sociedade e criam também a revista literária Tribo, buscando através da arte expressar a tão almejada liberdade. Mas como é de conhecimento geral, naquela época a Literatura e a Arte, em seu mais amplo significado, eram bastante censuradas e até mesmo consideradas subversivas.

Martim na verdade não é um líder, não leva a militância com tanto fervor. Ele é ingênuo e eu diria até mesmo fraco, mas não no sentido literário, pois essa fraqueza dele é o que faz mais complexo. Ao fazer parte da Tribo ele compartilha obviamente das mesmas ideologias mas de uma forma um tanto quanto circunstancial. A impressão que tive do personagem é que ele é mais levado pelo grupo do que pelos seus próprios ideais.

É claro que como tantos jovens daquela época ele sofria com a violência dos “anos de chumbo”, mas a ausência da mãe e o ressentimento por ela ter deixado-o é o que de fato rege o personagem. Esse abalo emocional fez a fase da adolescência passar com mais dureza. . Além disso a relação com o pai é estranha, há uma espécie de desprezo mútuo o que faz dele ainda mais solitário.

Inclusive a história da separação dos pais de Martim e o afastamento de sua mãe é quase um mistério que perpetua o livro inteiro e espero que nos próximos volumes isso seja mais explorado, até para entendermos melhor a motivação de cada um, principalmente a da Lina, mãe dele.

E uma outra coisa a respeito do conflito familiar do Martim que quero salientar é justamente a relação dele com a mãe que é ainda mais estranha. Tem um pezinho ali no incesto que me incomoda um pouco, não sei bem de que forma posso descrever esse incomodo, mas acredito essa seja a fonte do meu estranhamento.

No entanto eu gosto muito de como o autor construiu a narrativa, contando a história a partir das memórias e dos escritos nos diários de Martim em dois tempos: um rememorando a vida em Brasília e o outro o isolamento do exílio em Paris. Misturando a crise emocional do personagem dentro desse contexto de crise política, trazendo uma atmosfera bem singular desse tempo de opressão, mas sem forçar demais e sem fazer a leitura pesar tanto.

Como alguém que nasceu anos depois desse período, a leitura de livros que abordam essa parte da história é mais que necessária. Principalmente hoje, onde estamos vivenciando novos golpes políticos, novas crises e tempos de opressão velada. E isso me faz lembrar novamente a música: “Ainda somos os mesmos / e vivemos/ como os nosso pais.”

Porém esse não é um livro político e sim um romance de formação, essencialmente sentimental, na qual Martim enfrenta o sombrio exílio e a penosa espera por notícias e a reaproximação da mãe. É um livro sobre a solidão do personagem e sobre a sua busca por entender o isolamento.

Muito bem escrito, sensível e é mais um que super recomendo!

Milton Hatoum: Descendente de libaneses, ensinou literatura na Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e na Universidade da Califórnia em Berkeley. Escreveu Cinco obras: Relato de um Certo OrienteDois IrmãosCinzas do Norte (esse último vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura e todos os três primeiros ganhadores do Prêmio Jabuti de melhor romance), Órfãos do Eldorado e A Cidade Ilhada. Seus livros já venderam mais de 200 mil exemplares no Brasil e foram traduzidos em oito países, incluindo Itália, Estados Unidos, França e Espanha. Hatoum é conhecido por misturar experiência e lembranças pessoais com o contexto sócio-cultural da Amazônia e do Oriente.

 { Esse livro foi enviado pela editora Companhia das Letras para resenha no blog. Em compromisso com o leitor, sempre informamos toda forma de publicidade realizada pelo blog 

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