“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”

Um dos começos mais famosos do mundo é esse de Anna Kariênina, um contundente epígrafe do livro, na qual o leitor consegue ter uma prévia do que será a história e o que aguardar dela. Esse mote dá início a mais de 800 páginas de muitos conflitos, traições, relações perigosas, conturbadas, de paixões, amores não correspondidos, amores proibidos, perdas, crises existenciais, dúvidas, intrigas e por aí vai. Um pacote completo do que nós chamamos de um baita dramalhão. E tudo isso pensado, arquitetado e escrito por Liev Tolstói, um dos maiores escritores russos do século XIX.

Já consolidado com o épico Guerra e Paz, entre os anos de 1873 e 1877, Tolstói escreveu Anna Kariênina, que no início foi publicado por uma revista famosa da época. Depois da desavença com o editor da revista, que não concordava com as opiniões do Tolstói sobre a participação da Rússia na guerra da Sérvia, (tais opiniões estão difundidas nos diálogos entre os personagens), o editor se recusou então a publicar os últimos capítulos, o que levou o autor a se enfurecer e publicar ele mesmo em folhetos avulsos o capítulos que findavam a história.

Hoje Anna Kariênina é considerado um dos maiores clássicos da Literatura Mundial, tem várias edições publicadas no mundo todo e muitas adaptações para o cinema. Mas pra quem não está familiarizado com a história eu vou tentar resumir um pouco, sem spoilers é claro.

A história de passa na Rússia de Czarista, tendo como cenário as duas capitais, Moscou e São Petersburgo. E apesar do nome do livro sugerir que apenas a Anna Kariênina é o centro da trama, na verdade há duas histórias paralelas, que não dependem necessariamente uma da outra, mas estão ligadas de certa forma. Os dois protagonistas são a Anna e Liévin. Anna é uma senhora da alta sociedade russa, (aliás todos os personagens desse livro são nobre aristocratas) de beleza estonteante, casada com um importante funcionário do governo, Aleksei “Aleksándrovitch” Kariênin, muito rico e bem visto pela sociedade. Ao viajar para casa do irmão Oblonki (Stiepen “Stiva” Arcaditch) para tentar convencer sua cunhada (Dária Alekándrovna “Dolly”) de perdoar a traição do irmão, ela conhece um oficial do Exército, o Conde Vronsky. Eles se apaixonam e iniciam um romance adúltero e cheio de conflitos. Mas antes de se apaixonar por Anna, Vronsky fazia a corte a Princesa Cherbástkia, a Kitty, uma moça muito bonita e admirada, tida como um anjo por todos que a conhecem.

Do outro lado da história nós temos Konstantin Liévin, rapaz jovem proprietário de terras, que leva uma vida simples no campo, embora seja extremamente rico. Lievin é muito amigo de Oblonsky (o irmão de Anna) , e é apaixonado por sua cunhada Kitty e planeja pedí-la em casamento. Só que ao pedí-la ela o recusou por achar que o Conde Vronsky proporia casamento a ela. Mas o Conde acaba se apaixonando por Anna, deixando Kitty desolada. Lievin, por sua vez, fica muito decepcionado e com orgulho ferido.

Parece tudo mundo confuso, mas juro que no decorrer da história o leitor consegue acompanhar direitinho e saber quem é quem e o quê é o quê.

Como muitos críticos observaram, e nós constatamos ao longo da leitura, a história é repleta de paralelismos e contrastes: são dois protagonistas (homem e mulher), duas capitais. O contraste entre amor carnal e amor inocente. A vida em sociedade e a vida no campo, o intelectual e o prático, etc.

E a história muito embora seja linear, ela é toda fragmentada. Nunca predomina um só ponto, uma só trama. Como disse Rubens Figueiredo em sua Apresentação desta edição: “Em vez de desenvolver uma temática central e se ater a ela, o livro se organiza no paralelismo de várias linhas. Em vez de entrelaçar essas linhas, apenas as justapõe, na maior parte das vezes. Com isso, o tema é descentralizado a cada novo episódio.” Ou como observou Janet Malcolm, quem escreveu o posfacio dessa edição (um super texto de apoio, diga-se de passagem): “o romance está repleto de duplos ou duplicidades.”

É justamente por conta disso que fico me perguntando, e acho que a maioria que leu também, o porquê do nome do livro ser “Anna Kariênina”, dando a entender que a história é unilateral. Eu entendo que a Anna seja a personagem que tenha um certo elo com praticamente todas as tramas e personagens, se prestarmos atenção o desenrolar da história se dá a partir da aparição dela e das consequências disso.

Porém o Lievin é um personagem tão forte quanto a Anna. Muito das reflexões acerca da sociedade, e até mesmo as discussões filosóficas partem dele. Ele é um personagem riquíssimo, tem um tom cômico nos seus diálogos que dão um ritmo diferente e mais leve a trama. Em alguns momentos ele é muito chatinho, mas indubitavelmente bem construído. Ele é uma espécie de Alter ego do Tolstói, suas opiniões e vivências refletem muito à realidade do autor.

Acho que é também um equívoco quase unânime quando classificamos Anna Kariênina como um romance que fala sobre adultério, e na verdade o adultério é apenas uma das mais muitas discussões abordadas. O que de fato importa aqui é disseminar as relações familiares, sobretudo a vida conjugal, os conflitos, o sofrimento ou alegria inerentes às decisões que os personagens tomam, sejam elas corretas ou não, egoístas ou não.

“Para que se tome alguma decisão na vida conjugal, é necessária ou uma discordância completa entre cônjuges, ou uma harmonia amorosa. Quando as relações entre cônjuges são indeterminadas, e não há nem uma coisa nem outra, é impossível decidir qualquer questão. Muitas famílias permanecem durante anos nas antigas condições, odiosas para ambos os cônjuges, só porque não há plena discórdia nem plena harmonia.”

O Tolstói, de forma brilhante, desvenda as facetas desses personagens, todas as camadas possíveis e é fácil identificarmos isso. Com o Oblonsky, por exemplo, o Tolstói nos apresenta aquele típico boa vida e inconsequente,  mas que é impossível não se apaixonar. Com o Aleksei Aleksándrovith (o marido de Anna) a gente percebe um homem de conduta inabalável, assumindo depois uma postura mais fria e sombria de marido traído. Kitty é a jovem fácil de ser persuadida, um anjo que tem sempre bons pensamento e atitudes, mas que nutre rancor por Vronsky e Anna. Vronsky é o bonitão e cheio de status e admirado por todos, mas que na verdade exala mediocridade. Liévin é simples tem uma alma bondosa, porém é sisudo, inflexível, orgulhoso e inconstante. Anna é também uma pessoa bondosa, é sincera com seus sentimento e odeia hipocrisia, mas se torna egoísta, arrogante e desesperada.

Não há ninguém bom demais ou mal demais, isso os torna verossímeis. O próprio Tolstói é quase que o tempo todo imparcial e como ele mesmo disse uma vez: “Descobri que uma narrativa deixa uma impressão mais profunda quando não se percebe de que lado está o autor”. Reforçando aí a ideia dos “duplos e contrastes” que permeia a obra inteira. E é muito bacana pra nós ao longo do livro, descobrir esses traços e desvendar cada camada da personalidade deles.

Ao final da leitura desse calhamaço não hesitei em favoritá-lo, é o tipo de leitura indispensável. Não é nem de longe difícil de ler, é claro que sendo um livro muito extenso pode ter passagens maçantes e arrastadas (e teve muitas sim), com certeza vai “tomar” um tempo considerável para ler, mas de forma nenhuma seu tamanho deve ser visto como tabu. É um livro incrível e tem de ser lido por todos.

Eu gostaria muito de comentar sobre o desfecho do livro, em especial sobre o da Anna, mas como sempre falo, a intenção aqui não é estragar a experiência de ninguém. Porém eu só queria dizer que, mesmo já sabendo do final dela, ( pois lendo A Insustentável Leveza do Ser eu tomei esse spoiler) a descrição da cena, desde o início, como foi sendo construída toda a tensão crescendo até o famigerado acontecimento, é contada de um jeito tão visceral que não tem como não se impressionar. Com certeza essa cena ficará comigo por muito tempo. Nunca me esquecerei, é de uma beleza trágica sem explicação. Pronto! Isso é o máximo que posso contar.

Sobre essa edição nova e lindíssima da Companhia das Letras, a tradução, revisão e apresentação são do Rubens Figueiredo, e o posfácio ficou por conta da Janet Malcolm, uma das mais importantes jornalista americanas. E como disse, é um texto de apoio muito bom que capta algumas vertentes da obra que às vezes passa despercebido por nós e lança luz em alguns pontos importantes sobre os personagens.

Onde Comprar:
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Saraiva

ISBN-13: 9788535929225 | ISBN-10: 8535929223 |Ano: 2017 | Páginas: 808 | Editora: Companhia das Letras


O Conde Liev Tolstói
nasceu em 1828. Participou da Guerra da Crimeia e casou-se com Sofia Andrêievna Berhs em 1862. Enquanto Tolstói administrava suas vastas propriedades nas estepes do Volga, dava continuidade a projetos educacionais, cuidava dos servos e escrevia Guerra e paz (1869) e Anna Kariênina (1877). Uma confissão (1882) marcou uma crise espiritual em sua vida; ele se tornou um moralista extremista e, em uma série de panfletos, a partir de 1880, expressou sua rejeição em relação ao Estado e à Igreja. Morreu em 1910, em meio a uma dramática fuga de casa, na pequena estação de trem de Astápovo.

{ Esse livro foi enviado pela editora Companhia das Letras para resenha no blog. Em compromisso com o leitor, sempre informamos toda forma de publicidade realizada pelo blog 

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