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Assassinato no Expresso do Oriente: a recriação de um clássico

Assassinato no Expresso do Oriente: a recriação de um clássico

Assassinato no Expresso do Oriente: a recriação de um clássico

É sempre complicado falar sobre uma obra quando ela se torna uma de nossas favoritas da vida, porque não sabemos direito nem por onde começar. “Assassinato no Expresso do Oriente” foi o livro que me apresentou à genialidade de Agatha Christie, e me cativou desde a primeira página. Dessa forma, assisti empolgadíssima à primeira adaptação feita para o cinema, de 1974. E com a empolgação redobrada, esperei pela estreia no cinema (em novembro de 2017) da segunda adaptação, dirigida por Kenneth Branagh (de Thor e Cinderela).

Para quem não conhece a história criada por Christie em 1934, é o seguinte: o famoso detetive Hercule Poirot chega em Aleppo, na Síria (se não me engano), disposto a tirar suas merecidas férias. No hotel em que se hospedaria, ele recebe um telegrama chamando-o para resolver um crime em Londres. Ele embarca às pressas no Expresso do Oriente, para chegar a tempo. No meio do caminho, o trem é obrigado a ficar parado por uma forte nevasca, e um assassinato é cometido a bordo. Parados no meio do nada, e com o assassino certamente dentro do mesmo vagão, cabe a Poirot identificar o que aconteceu antes que o Expresso chegue ao seu destino.

Saí da sala do cinema em estado de êxtase, e esperei alguns dias para ler mais resenhas, escutar outras opiniões. Queria diluir a minha empolgação em um pensamento mais crítico e controlado. Acho que deu certo, meus amores. Então eu preciso contar como foi assistir a versão repaginada de “Assassinato no Expresso do Oriente”, e a primeira palavra que me vem à mente é: estranhamento.

Juro que isso não é para soar negativo, mas a minha primeira sensação foi de estranhamento, causada pela nova aparência do supremo Hercule Poirot (Cadê o cabelo preto lambido? Cadê a “cabeça em formato de ovo”? Cadê a veia cômica?) e pelo início do filme, cujas cenas simplesmente não existem originalmente.  Enquanto o livro já começa com o embarque de Poirot no Expresso do Oriente, o filme nos apresenta o detetive solucionando um roubo ocorrido na Turquia, mostrando toda sua sabedoria e compulsão por simetria. Só após isso ele descobre que precisa voltar à Londres no trem, e seguimos com a história já conhecida…

O filme mescla cenas iguais às vistas no livro com momentos onde a obra original se torna apenas uma mera influência. Mas nem tudo que buga a nossa mente deve ser considerado ruim, não é mesmo? E devo dizer que a cena “nada-a-ver” do início, por exemplo, acabou se revelando uma das sacadas mais legais desse filme: apresentar o detetive belga para quem nunca leu uma obra sequer de Agatha Christie.

Como um apaixonado por literatura, Brannagh parece ter pensado na adaptação como uma forma de apresentar a Rainha do Crime para a “geração smartphone”, introduzindo alguns detalhes que expõem a personalidade e a capacidade de raciocínio lógico que são próprios do detetive Poirot. Esse é um ponto que aproxima o público de não-leitores ao filme, porque mesmo quem nunca leu nada de Christie consegue entender o grau de importância do detetive, e o porquê de sua fama internacional.

Foi estranho ver o Poirot tão sério e com cara de mal? Foi. Mas foi ruim? Surpreendentemente não. Eu estava receosa com a nova aparência e com o corte da veia cômica, que era uma das marcas dele na obra original e na grande maioria das adaptações. Mas acabou sendo uma boa e nova experiência, onde a dissemelhança entre o Poirot de antes e o de agora tornou ambos encantadores.

O objetivo da resenha não é fazer uma mega comparação entre as adaptações para o cinema dirigidas por Sidney Lumet (em 1974) e Kenneth Branagh (em 2017), mas algumas coisinhas eu acho interessante de serem citadas. A escolha de um elenco de peso é uma delas. Se na década de 70 nomes como Albert Finney, Sean Connery, Anthony Perkins e Ingrid Bergman enriqueceram a produção, a escolha de Michelle Pfeiffer, Judi Dench, Johnny Depp, Josh Gad, Penélope Cruz e Willem Dafoe, além do próprio Brannagh interpretando o detetive principal, se mostra tão estrelada quanto.

Justamente por essa quantidade enorme de grandes atores no elenco, a impressão que fiquei, em alguns momentos, foi a de que alguns personagens se sobressaem aos outros no longa. Enquanto o Doutor Arbuthnot e Mary Debenham, por exemplo, são colocados em destaque, com muitas falas e momentos de tensão, Pilar Estravados e o casal Andrenyi são relegados a poucas palavras e a assistirem aos acontecimentos pacificamente. É claro que existe um curto tempo para o filme colocar todo mundo em cena, e sabemos que a quantidade de personagens criados por Agatha Christie é extensa no livro. Portanto, não me parece um erro grave, mas apenas uma difícil escolha por parte da produção, que não afeta a experiência do filme.

O que auxilia para que possamos captar a essência dos personagens, mesmo que alguns permaneçam em segundo plano, é o fato de eles serem caricatos. O que poderia ser um problema desanimador em outro contexto, aqui é uma colher de chá para o espectador: não temos tempo de absorver a personalidade de cada um dos suspeitos, então seu comportamento, suas roupas, seu olhar e suas poucas frases já servem para nos mostrar quem é quem dentro do Expresso do Oriente. Essa diferenciação clara das personalidades é exposta bem antes que o espectador chegue ao cinema: os pôsters individuais do filme descrevem cada um dos personagens em uma única palavra. Quer coisa mais caricata e rápida do que isso, minha gente?

Mas se o filme não ganhar o seu coração pela facilidade na compreensão dos fatos ou pela escolha dos atores, se prepare: você vai suspirar pela fotografia e pela qualidade da caracterização dos cenários de Assassinato no Expresso do Oriente. Brannagh (ou posso chamá-lo de Meu Poirot Grisalho? haháá) propõe ângulos de câmera muito diferentes, que evidenciam o cenário no entorno do trem paralisado pela neve. São cenários lindos, inóspitos, alastrados em um horizonte infinito num clima de final da tarde, que nos relaxa do outro lado da tela, enquanto nos lembra de sua frieza – literalmente.  Em alguns momentos, a câmera aparece de cima ou de fora do trem, observando quem caminha pelo seu interior como um rápido voyeur. Mas um dos lances mais incríveis é quando a câmera caminha pelos ambientes, assumindo o papel de Hercule Poirot. Aí, meus amores, aquele monte de suspeitos te encarando com cara de medo é um belo resumo do filme todinho!

Outra comparação entre as duas versões cinematográficas é a linda caracterização, tanto do estilo dos personagens quanto do ambiente do trem mesmo. Tanto na adaptação da década de 70 quanto na atual, o figurino me pareceu recriar com perfeição a elegância da década de 30, período em que a história se passa. Graças à tecnologia atual, a ambientação e a caracterização dos cenários internos do trem estão ainda mais deslumbrantes na adaptação de Brannagh, então temos aí mais um ponto positivo – em nível master – do filme.

Falando sobre a trilha sonora, a produção de Patrick Doyle se conecta com o clima proposto, que é uma fusão entre a elegância e a tensão, permeada pela sensação de imponência do trem e pelo drama que é inserido em determinados trechos da história. Para mim, até mesmo a música divulgada no trailer do filme foi certeira, se encaixando muito bem no contexto de adaptação contemporânea de uma obra tão clássica. “Believer”, da banda Imagine Dragons, dividiu opiniões por ter uma sonoridade tão atual e eletrônica, mas a melodia passa um clima de urgência que combina bem com o filme. Ainda falando sobre a trilha sonora do filme, preciso dizer uma coisinha: o que é o vozeirão da Michelle Pfeiffer cantando “Never Forget”? Sério, me arrepiei inteira com essa música!

Como (quase) toda adaptação, alguns detalhes fogem do que eram na obra original. Em “Assassinato no Expresso do Oriente”, alguns detalhes me pareceram meio sem-pé-nem-cabeça, e até desnecessários. Talvez para colocar alguma carga dramática no personagem de Poirot, ele aparece sempre relembrando e acariciando a foto de um antigo amor. Por estar acostumada com o Poirot prático e sem envolvimentos amorosos dos livros, achei isso esquisito demais e, confesso, estou procurando até agora qual o objetivo desse amor todo. Mas fora isso, me pareceu super hiper mega desnecessário o comportamento agressivo do conde Andrenyi, que no livro era descrito sempre como um homem controlado e diplomático.

Alguns recursos mais típicos do cinema, como as cenas de ação que não existiam no livro, me pareceram muito mais justificáveis, apesar de serem – também – uma grande surpresa. A gente entende que o livro é bem mais parado, focado nos diálogos, e talvez esse mesmo foco, se mantido na adaptação, afastaria a atenção do público rapidamente.

Mesmo com algumas coisinhas meio “ahn?”, o filme me prendeu completamente, tanto pela beleza das filmagens quanto por manter a proposta, o desenvolvimento e o final eternizado pela Rainha do Crime. Algo que já havia me encantado no livro é o conflito moral e emocional vivido por Poirot em determinado momento da narrativa, e o filme manteve essa característica lindamente. Aliás, palmas e mais palmas para a atuação de Michelle Pfeiffer, porque…gente…assistam esse filme incrível, e vocês vão entender. Até mesmo porque, como fala o Poirot de Kenneth Brannagh, um assassinato não é apenas um crime isolado. É algo muito maior do que isso.

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