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[Café&Sophia] Os Frutos da Dúvida Sistemática

[Café&Sophia] Os Frutos da Dúvida Sistemática

Por Lucas Mesquita

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Método Charroniano

Examinar todas as questões, livre e desapaixonadamente, para manter o preconceito e emoções fora das decisões, para desenvolver uma universalidade da mente e para rejeitar todas as soluções que sejam, sob qualquer aspecto, dúbias.

Método Cartesiano

A primeira regra seria não aceitar nada como verdadeiro sem que eu tivesse claramente reconhecido como tal, isto é, cuidadosamente evitar precipitação e preconceito nos juízos, e não aceitar neles nada além do que seja apresentado à minha mente tão clara e distintamente que não haja possibilidade de duvidar.

Pierre Charron, um teólogo do final do séc. XVI, é quase completamente desconhecido e não reconhecido, embora mereça ser considerado um dos pais da filosofia moderna. Antes de Francis Bacon e de René Descartes, propôs um método para afastar da mente preconceitos, erros e dogmas acumulados.

Além de defender este método de lidar com os problemas, o de tudo duvidar, Charron oferece uma morale, um modo de viver adequado a essa situação de sábia incerteza, a saber, viver de acordo com a natureza, seguindo desapaixonadamente as próprias inclinações naturais e os costumes.

Para Charron, jamais o cético e o pirrônico será um herético, questão que constituía elevada posição na sua tese – considerando sua posição de cético fideísta –, porque o cético em seu estado de completa dúvida e moral natural não vai manter nenhum ponto de vista e, em conseqüência, nenhum que seja falso.

Diferente de Descartes, o método de Charron e a morale são o caminho para o verdadeiro conhecimento, não por produzir conhecimento, mas por torná-lo acessível. O conhecimento não é o resultado da aplicação do método, mas um milagre que ocorre, ou pode vir a ocorrer, depois do método ter sido aplicado. O valor do uso do método é que ele coloca o indivíduo nas condições apropriadas para receber conhecimento, mas em si não contribui com nenhum conhecimento, nem garante sua ocorrência.

Descartes, em seu discurso do método, revelou a extensão em que situações duvidosas podem surgir, através da elaboração de três níveis de dúvida:

  1. As dúvidas relacionadas à experiência comum, devidas à ilusão dos sentidos;
  2. As dúvidas relacionadas à existência real do mundo que conhecemos;
  3. As dúvidas relacionadas ao nosso raciocínio, devido a existência possível do malin génie.

No entanto, qual a diferença entre a dúvida no pirronismo católico de Charron e a do pai oficial da filosofia moderna Descartes?

Descartes esperava encontrar a base sólida do conhecimento nos conteúdos da mente humana.

“Não que eu realmente tivesse imitado os céticos, que somente duvidam pelo prazer de duvidar e fingem estar constantemente incertos; porque, ao contrário, meu desejo era somente me prover de boa base para a certeza e rejeitar a areia movediça e a lama, a fim de encontrar a rocha ou a argila”

Enquanto Charron cria na verdade fora daquilo que conseguimos acessar, seja através dos sentidos, seja através do raciocínio.

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