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Literatura Nacional

[Conto] O uivo cinza | Conto ambientado no novo mundo das trevas.

Confira o conto Assembleia de guerra – ambientado no novo mundo das trevas – clicando aqui.

– Não sei o que fomos caçar em uma igreja! – Indagou Lizi, Chama-Furiosa, uma jovem ruiva com cabelos no ombro, blusa de alça e calça jeans rasgada.

– Ver meu contato. – Respondeu ríspida Helara, Filha-de-Coruja. Ela era uma mulher negra com lindos cabelos cacheados. Vestia uma blusa cinza simples, saia até o joelho e carregava uma modesta bolsa preta.

– Eu sei, eu sei, espíritos se alimentam de emoções, então o melhor lugar para encontrar seu contato, um espírito de anjo, era em uma igreja. O que estou perguntando é o que um serial killer tem a ver com espíritos? – Reclamou Lizi.

Helara suspirou cansada e continuou andando. Elas passavam em frente a uma boate, a música eletrônica e o clima abafado da noite de verão geravam desconforto na mulher.

– Fale mestra Helara! Você não está aqui para me ensinar? – Desafiou Lizi.

– Estou te ensinando pelo exemplo. – Retrucou a mestra e fez um gesto para que a garota se calasse.

Vrum.

Ambas ouviram um barulho de serra elétrica distante e viraram em uma rua estreita na direção do som.

– Se na igreja você estivesse escutando, saberia que o serial killer é um espírito que saiu do reino sombrio e veio para o mundo físico. – Explicou a mestra.

– Eu sou uma Uratha (lobisomem)! É óbvio que estava ouvindo, agora mesmo alguém está vomitando na boate, eca! Peixe. – falou Lizi com um gesto de repugnância.

Vruum.

O barulho da serra elétrica ficou mais alto. Subitamente, todas as lâmpadas dos postes começaram a piscar, parecia um mau contato generalizado. A rua estava deserta.

– E quem usaria uma serra elétrica essa hora da noite? –Continuou Lizi.

– O ESPÍRITO! – Gritou a mestra. – Ouvir não é escutar, me escute! Um espírito atravessou o dromo, a película que divide o mundo físico da Hisil (mundo dos espíritos). Precisamos identificar seu tipo para combatê-lo adequadamente.

– Espírito? Somos Uratha! Sabe o que acontece quando nossas garras acertam um espírito? –Sorriu Lizi. – O mesmo que acontece quando acerta qualquer outra coisa: destrói!

Vrruum.

A luz de um dos postes se apagou por um instante, acendeu em seguida revelando um homem. A falta de camisa e a calça jeans apertada evidenciavam as banhas. Uma máscara de hóquei cobria seu rosto, segurava uma serra elétrica com as duas mãos.

Lizi assumiu o aspecto do monstro que aparece em filmes de lobisomem, a forma guerreira dos Uratha: Gauru. A garota uivou e atacou com as garras, o corte fez voar um líquido verde viscoso. Por trás da máscara surgiu um som abafado, parecia um riso.

– Não Lizi, pare de atacar, ele é um espírito de violência, não pode ser vencido assim. – Gritou a mestra enquanto retirava da bolsa um frasco contendo sal.

A garota ignorou o comentário, desviou de um ataque lento da serra elétrica e começou a retalhar o inimigo com garras e mordidas.

– PARE LIZI! – Gritou Helara, enquanto jogava o sal no chão e pronunciava palavras incompreensíveis.

A criatura havia crescido, dois metros e meio, fedia suor e cerveja, nem parecia sentir os ataques da garota. O inimigo desferiu um veloz ataque lateral, Lizi percebeu tarde demais, a serra elétrica rasgou o estômago e triturou os ossos da coluna com barulho de broca, os pulmões explodiram antes que a menina pudesse gritar. As duas partes da Uratha caíram no chão e retornaram à forma humana, Helara olhava desesperada.

A mestra observou a garota sem vida e não pôde conter uma lágrima. O inimigo correu pesadamente e desferiu um ataque na mestra, Helara reagiu estendendo a mão aberta com um gesto de pare. A serra veio barulhenta, cortou quatro dedos da Uratha e errou o pescoço por pouco.

Por um instante, o mundo girou e a visão turva percebeu o aproximar do inimigo. O coração da mestra acelerou, a dor e o desespero começaram a dar ordens, possuir o corpo da Uratha.

– Agora não! – Pensou Helara.

Às vezes os lobisomens controlam o monstro interior, como Lizi, outras vezes o monstro assume o comando. Um Uratha pode sucumbir à fúria mortal em resposta ao stress, nesses casos ele perde a consciência, assume a forma Gauru e destrói tudo, até mesmo os aliados.

Matar. Comer. Odiar. A fera pulsava no interior da mestra, o sangue escorria livremente pelo ferimento, a serra elétrica rugia e se aproximava. Helara respirou fundo, fechou os olhos e começou a exercer sua vontade para lutar contra seus sentimentos, se acalmar. O inimigo estava próximo, o fedor era insuportável, o barulho da arma enlouquecia os ouvidos sensíveis da Uratha. Olhos ainda fechados, a dor incomodava, tinha vontade de rasgar o cara, arrancar seus braços, beber seu sangue. Mas violência não é a única maneira de resolver um problema, se acalmou, abriu os olhos.

Vrum.

O som diminuiu até parar, parecia que a gasolina da serra elétrica havia esgotado. O espírito puxava a corda tentando ressucitar a arma.  Nada. A mestra não perdeu tempo, puxou da bolsa uma camisa preta e branca com o escudo de algum time de futebol, jogou no chão sobre o sal e pronunciou três palavras incompreensíveis. O espírito começou a ser sugado para a camisa, ele urrava, tentava se segurar no chão, mas foi inútil, seu corpo diminuiu e adquiriu uma forma líquida, sendo absorvida completamente pelo pano.

Um olhar cuidadoso na camisa de time revelaria uma pequena mancha vermelha, que poderia ser sangue ou catchup. Uma loba emitia um uivo longo e triste ao lado do corpo de Lizi, Chama-Furiosa.

 

1 Comment

  • Dalva
    22 de janeiro de 2014 at 17:56

    Tô aguardando mais um conto da mestra Helara…

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