Charlotte Perkins Gilman. Você já deve ter escutado ou lido esse nome em algum lugar, não é mesmo?! A escritora norte-americana se tornou mundialmente conhecida pelo conto “O Papel de Parede Amarelo”, em que narra o confinamento de uma mulher pelo próprio esposo, e as consequências dramáticas desse isolamento em sua mente. Nessa obra (que é considerada semi-autobiográfica), assim como em todos os escritos não-ficcionais de Gilman, ela reforça uma preocupação com o papel da mulher na sociedade, tentando romper – ainda no século 19 – o estereótipo de submissão e incapacidade feminina.

O pensamento feminista de Charlotte tem um campo maior de evidenciação, porém, em Herland, uma utopia publicada em 1915 com um plot que, pelo menos euzinha, nunca tinha visto igual. Em um lugar remoto, uma comunidade vive em plena harmonia, sem a menor noção do que é capitalismo, roupas de grife ou casamento. Não há fome de dinheiro, nem grandes construções, regras de etiqueta para sentar à mesa e…bem…homens. Isso mesmo, não existe nenhum homem. Essa sociedade isolada é completamente composta por mulheres, e todas elas têm como valores o respeito entre si, a ajuda mútua, o respeito às suas antepassadas, a busca por conhecimento, a convivência não exploratória com a natureza e, principalmente, a maternidade. É sobre essa história, trazida para o Brasil pela editora Rosa dos Tempos – um selo feminista do grupo editorial Record – e chamada por aqui de “Terra das Mulheres”, que eu quero conversar com vocês nesse post.

Verdade seja dita que essa obra já teve uma edição publicada em português, mas ela é da década de 80 e deve ser encontrada somente em sebos. Entããão, fiquei maravilhada em conhecer “Terra das Mulheres” com uma edição novinha, lindinha, cheirosa e recém-chegada às livrarias. Até porque, em tempos de conservadorismo e pensamentos retrógrados voltando à tona, é necessário que existam livros questionadores do espaço da mulher na sociedade, só pra lembrar que somos muito mais do que tantos padrões já estabelecidos.

“Temos dois ciclos de vida: o do homem e o da mulher.
Para o homem, há crescimento, luta, conquista, estabelecimento da família, e quanto mais sucesso em ganho ou ambição for capaz.
Para a mulher, crescimento, conquista de um marido, atividades subordinadas à vida familiar, e perseguir os interesses de sociedade e de caridade que sua posição lhe permitir.
Ali havia apenas um ciclo, imenso.” – pg. 180

Temos aqui uma história narrada por Vandyck Jennings, um sociólogo que traz de volta suas antigas memórias da juventude para nos contar sobre a expedição que fez com dois amigos, Terry Nicholson e Jeff Margrave. Tendo como objetivo inicial desbravar novas espécies de flora e fauna nativas da localidade, eles acabam descobrindo, por acaso, uma comunidade afastada e surpreendentemente habitada. Curiosos, eles decidem entrar no país por conta própria e são retidos por elas, para explicarem o porquê de sua “visita”.

Antes de pensar sobre como funciona essa sociedade, é interessante observar a personalidade de cada um dos personagens masculinos que assumem o protagonismo na obra. Terry é apaixonado por ciência, pertence a uma família riquíssima e é extremamente machista. Para ele, não há como existir e, muito menos, como se manter uma comunidade sem a presença ordeira e central dos homens. Ele renega a ideia com todas as forças, e devo deixar claro: desperta um ranço interminável no leitor! Jeff é o oposto do amigo, sendo sensível, paciente e gentil. Ele enxerga as mulheres como seres próximos da perfeição, e fica maravilhado com o estilo de vida na Terra das Mulheres. Já Vandyck, o narrador, representa um quase exato meio termo entre Jeffe Terry. Digo “quase” porque Van não é um machista, simplesmente. Ele tem bom senso e consegue assimilar as diferenças reais entre seu país de origem (os Estados Unidos) e a terra feminina, de forma racional. Como sociólogo, Van se permite imergir na cultura das mulheres e observar seu modo singular de encarar a vida. Ele consegue ser uma visão mais livre de pré-julgamentos e, em sua sede por descobrir e compreender aquele grupo, nos apresenta a elas com uma imparcialidade digna de um narrador em terceira pessoa (mesmo falando em primeira). Graças às personalidades diferentes dos personagens, temos três pontos de vista diferentes sobre o mesmo local, o que estimula um posicionamento ativo do leitor.

A Terra das Mulheres é um lugar pacífico, onde todas as habitantes são unidas e se ajudam em qualquer necessidade. Extremamente inteligentes, elas estudam e pesquisam ao máximo para conhecer a história do lugar onde vivem e da natureza que as cerca. Graças a um milagre chamado de Partenogênese, elas conseguem engravidar naturalmente sozinhas, substituindo a participação masculina pelo simples desejo de ser mãe. Falando sobre a maternidade, esse é o maior objetivo das mulheres da comunidade/país: elas se dedicam ininterruptamente às pequenas meninas, para que estas se desenvolvam e continuem levando adiante o legado de suas antecessoras.

Essa devoção toda à maternidade pode fazer com que nós, leitoras mulheres do século XXI, não nos conectemos tanto assim com essas mulheres retratadas por Gilman lá em 1915. Mesmo porque, hoje nós sabemos que não somos obrigadas a ter filhos, e que eles devem vir conforme nosso desejo, em primeiro lugar. Mas não se deixe levar por essa “desconexão”, porque, na comunidade de Terra das Mulheres, existe um motivo compreensível que justifique a busca pela maternidade: afastadas do resto do mundo, as moradoras do lugar vivem sob a apreensão de que, algum dia, a terra chegue ao ponto de ficar desabitada. Elas prezam muito pela continuidade – e aprimoramento – dos conhecimentos e da história de suas ancestrais, e para que o lugar permaneça em constante evolução, a necessidade por mais e mais crianças é real.

A respeito da forma como as mulheres criam as crianças – que é singular, e também sobre a interação entre os forasteiros e as nativas da Terra das Mulheres, acho até melhor não detalhar muito, pois estes são alguns dos porquês que me fizeram adorar esse livro. A troca cultural entre ambos e o que cada um tem a oportunidade de aprender são duas das grandes lições que a obra de Charlotte nos traz, nos fazendo refletir sobre como poderíamos levar a vida de forma mais respeitosa entre os gêneros e, ao invés disso, nos deixamos levar por estereótipos e preconceitos. As mulheres desse país longínquo não são afetadas pelo pensamento deturpado da sociedade em que Van, Terry e Jeff vivem, e, portanto, não se sentem intimidadas por eles ou pelo simples fato de serem homens “invadindo” sua terra. Elas nos ensinam a confiarmos no nosso potencial de união feminina, na nossa inteligência e sensatez; uma lição dada no início do século XX e que continua valendo em pleno 2018, enquanto escrevo essa humilde resenha.

“Toda a devoção submissa que nossas mulheres destinam às suas famílias privadas, essas mulheres dedicam ao país e à raça. Toda a lealdade e o serviço que os homens esperam das esposas, elas não davam a homem algum, mas coletivamente uma para a outra.” – pg. 168

Não sei até que ponto isso pode (ou não) ter sido a intenção da autora, ou qual o nível de “viagem-na-batatinha” do que eu vou dizer, mas ao fazer essa leitura, o que me veio à mente foi a sensação de estar lendo um romance-tese, daqueles em que os personagens são colocados em determinado ambiente, enquanto o escritor apenas observa seu comportamento e ações. Gilman, dentro dessa lógica, parece nos colocar em um ambiente experimental, onde as mulheres não sofrem a influência negativa do machismo e das opressões cotidianas oferecidas pelo nosso mundo real. Sem toda a pressão e expectativas masculinas em cima dessas mulheres, elas são livres para estabelecerem um cuidado mútuo, uma preocupação com as coisas que realmente importam para elas.

Inserindo três personagens masculinos nesse ambiente construído e liderado por mulheres, e retirando de cena o velho mito da mulher submissa ao homem, Charlotte Perkins Gilman consegue abrir nossos olhos, tanto para a independência e capacidade feminina, quanto para a falta de coerência nos costumes adotados cegamente, pelos seres humanos, em seus relacionamentos em sociedade.

Por mais que a obra tenha um “pezinho” na ficção científica e na utopia, principalmente pela questão da Partenogênese, ela reflete a independência feminina de uma maneira bem realista e muito bonita. Afinal de contas, sem as amarras do machismo (ou mesmo lutando contra ele) toda mulher consegue mostrar seu verdadeiro potencial e autonomia. Terra das Mulheres não é apenas uma boa leitura com uma escrita primorosa. Esse é um livro que desconstrói o mito da fraqueza e incapacidade feminina, e mesmo que tenha sido escrito no século passado, ainda guarda um forte potencial em nos fazer refletir. Encerrando essa resenha, eu preciso citar o refrão da Beyoncé, que não me saiu da cabeça durante essa leitura: who run the world? Girls!

Onde Comprar:
Submarino

ISBN-13: 9788501114808 | ISBN-10: 8501114804 | Ano: 2018 | Páginas: 256 | Editora: Rosa dos Tempos

Charlotte Perkins Gilman foi uma grande romancista Americana; também escritora de contos, poesia e não-ficção e uma palestra sobre reforma social. Ela era uma utopista feminista em uma época em que suas ações não condiziam com as atitudes das mulheres, e serviu de modelo para futuras gerações feministas por causa de seus conceitos não ortodoxos e seu estilo de vida. O seu trabalho mais famoso é seu conto semi-autobiográfico O Papel de Parede Amarelo.

{ Esse livro foi enviado pela editora Rosa dos Tempos para resenha no blog. Em compromisso com o leitor, sempre informamos toda forma de publicidade realizada pelo blog 

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