Li Kindred – Laços de Sangue no mês passado e até então não consegui falar sobre ele. A importância desse livro é tamanha, tanto pela temática como por ter sido escrito por uma autora com a bagagem da Octávia E. Buttler. Ela é considerada a Dama da Ficção Científica e levou diversos prêmios por isso. Porém até pouquíssimo tempo eu não sabia quem era Octávia. Esse meu desconhecimento da obra dela, se deve pela minha total ignorância com relação ao gênero, apesar de me despertar bastante curiosidade, nunca consegui ir muito além nas leituras. Mas esse desconhecimento também se deve ao fato de que lemos e consumimos poucos autores(as) negros e isso é sim uma problemática. Fico feliz que isso esteja mudando e mais autores negros estejam sendo publicados aqui no Brasil, e que estejam nas listas e intenções de leituras.

Tenho certa hesitação com livros que estão com todo um Hype, muitas vezes cria-se uma grande expectativa e isso não é necessariamente bom, pelo menos não pra mim. Mas Kindred não é apenas um hype, apesar de ter ressalvas, esse livro definitivamente vale toda a atenção que está tendo.

Acho que a essa altura todos já devem saber um pouco do que se trata esse livro, mas bem resumidamente o livro conta a história de Dona, que em seu aniversário de 26 anos muda-se com o marido para um novo apartamento. Em meio a pilhas de livros e caixas abertas, ela começa a se sentir tonta e cai de joelhos, nauseada. Repentinamente se encontra à beira de uma floresta, próxima a um rio. Uma criança está se afogando e ela corre para salvá-la. Mas, assim que arrasta o menino para fora da água, vê-se diante do cano de uma antiga espingarda. Em um piscar de olhos, ela está de volta a seu novo apartamento, completamente encharcada. É a experiência mais aterrorizante de sua vida… até acontecer de novo. E de novo.

Ou seja, Dana viaja no tempo, mas não qualquer tempo, ela vai direto para o século XIX, na cidade de Maryland onde a escravidão ainda estava em curso. Essa cidade fica no sul dos EUA e todos sabemos que essa região era totalmente absorvida pelo senso da supremacia branca, e até hoje a segregação racial é bem forte lá.

Existe uma ligação entre Dana e o menino, Rufus, ao longo da história tanto ela quanto nós leitores entendemos o porque disso. A verdade é que Dana não tem escolha, ela precisa salvar Rufus sempre, pois sua vida também depende disso. Não é como se tivesse um portal onde ela escolhe ir e vir, eles estão ligados através da dor e do medo. Sempre que esses sentimentos surgem ela viaja no tempo.

O fato é que Dana é uma mulher negra, embora livre – tecnicamente esse não é o seu tempo, ela não faz parte dessa época – que foi jogada no período escravocrata e se ver completamente vulnerável, na iminência de um perigo constante, e logo sente na pele, literalmente, o que seus antepassados sofreram. Dana, por ser uma mulher negra nos EUA dos anos 70 já vivia e reconhecia o racismo, mas está em uma época daquela é doloroso demais, e a autora conta a história de forma crua, sem romantização da escravidão, da dor e do sofrimento.

“Eu era a pior guardiã possível que ele podia ter, uma negra para cuidar dele em uma sociedade que via os negros como sub-humanos, uma mulher para cuidar dele em uma sociedade que via as mulheres como eternas incapazes.”

Compreendo a ligação deles e tudo que está em jogo, mas o que me fez ter algumas ressalvas com a história, foi a “passividade” de Dana com relação a Rufus. É óbvio que ela se questiona e as atitudes dele a revoltam, mas achei que em muitos momentos ela se resigna àquela situação, por diversas vezes eu fiquei esperando algum tipo de explosão dela, mas achei-a passiva.

Só depois de terminar e refletir, pensei: mas o que ela poderia fazer? Qual poder Dana possuía em uma época dessa? Ela não tinha controle sobre seu próprio corpo, o que ela poderia fazer? A própria Dana se auto analisa e se questiona diversas vezes sobre sua relação com Rufus e como todo esse processo acaba escravizando não só seu corpo, mas sua mente também. Aguardar alguma atitude explosiva ou menos passiva dela é o mesmo que anular o sentimento de revolta que cada escravo tinha dentro de si.

“(…) – Agora entendo porquê.

-O quê?

-A facilidade. Nós, as crianças… Não sabia que pessoas podiam ser condicionadas com tanta facilidade a aceitarem a escravidão.”

(…) Eu estava me acostumando a ser submissa? (…) eu temi estar separando muito de mim mesma e dessa época desconhecida. Agora, não havia distância nenhuma. Quando eu havia parado de fingir? Por que eu havia parado? (…) Mas, por um momento queria ser dona de mim. Antes que me esquecesse como era ser dona de mim.”

Mesmo se valendo dos moldes da ficção científica trazendo o tema “viagem no tempo”, o livro torna-se incrível por debater de forma pungente diversas questões sociais, fazendo até mesmo uma espécie de parâmetro entre uma época e outra, e problematizando as mazelas que a sociedade carrega como legado.

Recomendo demais!

Onde Comprar:
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ISBN-13: 9788592795191 | ISBN-10: 8592795192 | Ano: 2017 |  Páginas: 432 | Editora: Morro Branco

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