“O romance narra a infância e juventude da escritora, dramaturga, ensaísta e ativista política italiana Natalia Ginzburg (1916-1991). As memórias de sua convivência em uma família burguesa, letrada e judia, em meio ao fascismo e à Segunda Guerra Mundial, são narradas em estilo minimalista. Caçula de cinco irmãos, a menina recria o passado lembrando das frases repetidas em família.”

A autobiografia de uma família  judia e burguesa da Itália Fascista contada de forma romanceada, no sentido de se distanciar dos moldes da biografia, Natalia Ginzburg conta a história da sua família, em meio as leis raciais, prisões e morte dos dos familiares e amigos e a melancolia do pós-guerra. Mas diferente de outros relatos de famílias Judia na Guerra, a narrativa de Ginzburg é leve, os fatos e causos da família são contados de forma divertida e bem humorada.

A religião na verdade nunca foi o foco ou fazia alguma diferença na vida dentro do microcosmo familiar, o que de fato fazia a diferença era a ideologia política Socialista. Embora tenha-se o respeito às tradições, a questão religiosa só ficou evidente quando os acontecimentos externos estouraram trazendo “arrogancia, o fanatismo e a ostentação muscular do fascismo(…) o contraste entre as duas esferas, a privada e a pública, aparentemente não correlatas, onde a História invade e abafa o desejo de normalidade da “boa” burguesia italiana”, assim como diz Ettore Finazzi-Agrò no posfácio da edição.

A história da família de Natália é banal, cotidiana, composta de vários ‘muitos’ e ‘nadas’, como qualquer outra família da época. O que de fato  faz do livro uma interessante leitura é a referência direta do título, o vocabulário peculiar, singular e íntimo deles. Ginzburg busca resgatar a lembrança dos laços, a interação da família através do léxico.

As palavras, frases, bordões e simples interjeições eram  a ligação mais forte entre eles. A maneira como Ginzburg desenvolve e relata no livro, com toda a sensibilidade e cuidado de representar bem como o léxico era algo forte e intrincado nas relações deles, faz a gente refletir sobre a nossas próprias relações familiares, o quanto nos reconhecemos com pequenas sentenças de palavras.

“Somo cinco irmãos. Moramos em cidades diferentes, alguns de nós estão no exterior: e não nos correspondemos com frequência. Quando nos encontramos, podemos ser, um com o outro, indiferentes ou distraídos. Mas, entre nós, basta uma palavra. Basta uma palavra, uma frase: uma daquelas frase antigas, ouvidas e repetidas infinitas vezes, no tempo de nossa infância. (…) Uma dessas frases ou palavras faria com que nós, irmãos, reconhecêssemos uns aos outros na escuridão de uma gruta, entre milhões de pessoas. Essas frases são o nosso latim, o vocabulário de nossos tempos idos é como os hieróglifos dos egípcios ou dos assírios-babilônicos, o testemunho de um núcleo vital que deixou de existir, mas que sobrevive em seus textos, salvos da fúria das águas da corrupção do tempo”.

Apesar de ser um relato diferente do que nós estamos acostumados quando se trata de Segunda Guerra Mundial e de a história ser permeada pelo bom humor, Natalia fala com muito pesar sobre o pós-guerra para os literatos. Ela apresenta esse período tentando resgatar toda a melancolia que se formou e o efeito disso nas vidas deles. Na época do Fascismo muito tiveram o jejum forçado da palavra, muitos poetas e literatos se viram emudecidos e “obrigados somente a exprimir o mundo árido, fechado e sibilino dos sonhos.”

“O pós-guerra era um tempo em que todos pensavam ser poetas, e todos pensavam ser políticos; todos imaginavam que fosse possível e necessários fazer poesia de tudo, depois de tantos anos em que o mundo pareceu emudecido e petrificado, e a realidade fora olhada através de um vidro, uma vítrea, cristalina e muda imobilidade. Romancistas e poetas, nos anos do fascismo, tinham jejuado, por não existirem ao redor muitas palavras que fosse permitido usar; e os pouco que ainda tinham usado palavras escolheram-nas com todo cuidado no magro patrimonio de migalhas que restavam.”

Ou seja, havia uma espécie de comoção geral pela “volta da palavra” depois desse jejum forçado. Porém, para ela era um erro acreditar que tudo poderia virar poesia e que isso poderia gerar um fastio da verdadeira poesia, era portanto necessário que os escritores voltassem a assumir o seu ofício de escrita para que tornassem a fazer sentido.

Léxico Familiar é uma livro que foi desenvolvido e construindo através da memória da linguagem íntima, do dialeto particular e é uma história de amor pela palavra, escrita e falada.

Aos apaixonados por histórias simples e realista a leitura vale muito a pena.

Recomendo!

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ISBN-13: 9788535929874 | ISBN-10: 8535929878 | Ano: 2018 | Páginas: 256 | Editora: Companhia das Letras

Natalia Levi Ginzburg nasceu em Palermo, em 1916. Pertenceu a um grupo intelectual da maior expressão da literatura e crítica italiana, do qual fazia parte Cesare Pavese, Italo Calvino, Elio Vittorini, Giulio Einaudi e Eugenio Montale. Seu primeiro marido, Leone Ginzburg, foi morto numa prisão romana em 1944. Um dos filhos do casal é o renomado historiador Carlo Ginzburg, conhecido pela obra O queijo e os vermes (1976) e autor da introdução feita especialmente para a edição brasileira do livro Piero della Francesca, de Roberto Longhi, publicado pela Cosac Naify, em 2007. Natalia casou-se depois com o crítico literário Gabriele Baldini. Integrou o Partido Comunista, foi ativista política e deputada. Escritora notável, obteve grande reconhecimento na Itália e no exterior.

{ Esse livro foi enviado pela editora Companhia das Letras para resenha no blog. Em compromisso com o leitor, sempre informamos toda forma de publicidade realizada pelo blog 

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