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O mundo está caindo lá fora e eu escrevo isso com meu cachorro deitado nos meus pés. Antigamente a qualquer sinal de temporal, eu me esconderia dentro do guarda roupa, colocaria meus fones de ouvido no maior volume para não escutar o canto do vento.

Hoje eu não tenho mais medo da tempestade.

Depois da primeira tempestade que eu e Sandman passamos juntos, esse medo morreu. Sim, meu cachorro se chama Sandman, ele dorme muito e é melodramático mesmo tendo olhos de cigana oblíqua e dissimulada como Capitu. Mas voltando a tempestade, naquela noite Sandman me acordou chorrando, parecia que o mundo iria acabar e no fundo daqueles olhos quase pretos eu vi o que era medo de verdade.

Hoje eu não tenho mais medo da chuva.

Ele se aninhou no meu colo e eu senti que para aquele cachorro eu era quem podia protegê-lo. Para ele eu era a força para lidar contra os seus medos. Como eu poderia ser confiável, ser forte, se eu também tremia por dentro em cada trovão que ouvíamos?

Naquele dia, eu não tive mais medo quando os pingos de chuva começavam a cair.

Eu perdi o medo, mas também questionei se eu poderia ter um cachorro. Ele tinha medo, e eu também, como se pode ser forte quando por dentro você está entrando em pânico? Naquele dia talvez nós dois aprendemos que se estivermos sozinhos e comece a chover tudo que precisamos fazer é ficarmos juntos.

Naquele dia, eu não temi mais a tempestade, meu medo era outro.

Dizer que os cachorros salvam a nossa vida já é um clichê, mas eu nunca tive dúvida disso. Desde quando vi aqueles olhinhos castanhos cheios de vida e alegria eu soube que não temeria mais a chuva, as tempestades ou até mesmo a vida.

Naquele dia eu soube que temeria a despedida.

É apenas um cachorro para alguns, para outros até mesmo um demônio de quatro patas. Para mim ele é um amigo. Ele sabe quando eu estou triste, ficou do meu lado quando eu terminei meu namoro e não sabia para onde correr. Ele ficou do meu lado quando viu a minha crise de pânico chegando mesmo sem qualquer ameaça de chuva. Quando estou estressada ou preocupada, ele se aninha nos meus pés e incrivelmente não faz nada que me deixa nervosa ou irritada. Ele é um cachorro, mas me conhece, me defende e até mesmo tem ciúmes de mim. Posso não ser a melhor pessoa do mundo, mas pra ele eu também sou sua amiga.

Naquele dia eu sabia que não conseguiria imaginar o dia em que ele não estará mais aqui.

Se chove, estamos um ao lado do outro. Não importa se a tempestade é aqui dentro ou lá fora. Temos um ao outro.

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