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Há 28 anos o Dr. Drauzio Varella começava seu trabalho como médico voluntário na casa de Detenção de São Paulo, o conhecido Carandiru. E toda a sua vivência e experienciais adquirida ao longos dos anos lançou dois livros, Estação Carandiru e Carcereiros, que reúnem histórias dos detentos, dos funcionários e da vida de um modo geral nos presídios por onde passou.

Agora em 2017, a editora Companhia das Letras, está lançando Prisioneiras, que funciona como uma espécie de fechamento da Trilogia do sistema carcerário brasileiro, justamente por tratar questões e explorar a vida no cárcere, só que dessa vez de uma prisão feminina. Além de fechar a trilogia, o livro tem como proposta fazer um paralelo com o então Estação Carandiru, para que a gente possa entender as diferenças entre esses dois grupos de prisioneiros, procurando apresentar um pouco do que o autor viveu, escutou e aprendeu nestes já onze anos na Penitenciária Feminina da Capital.

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“Eu conhecia muito bem o ambiente. Depois da implosão do Carandiru, havia trabalhado lá como voluntário durante três anos, até a Penitenciária do Estado deixar de ser a cadeia masculina que historicamente foi.”

Seu trabalho como médico e cientista é bastante conhecido e na Literatura ele também já tem um currículo e tanto, mas essa é a primeira vez que tenho contato com a sua escrita, que é bem acessível e direta. A narrativa é sempre mais próxima do autor, e tem um ritmo fluido, apesar das histórias muitas vezes terem um tom pesado, o que já era de se esperar devido a abordagem de assuntos tão delicados.

Nas 277 páginas o leitor se depara com diversos depoimentos e histórias, tantos das detentas, quanto do próprio Drauzio. São histórias de como algumas entraram para o mundo do crime, de como foram presas, das motivações, dos familiares, dos relacionamentos dentro e fora da prisão. Há uma detalhação bem ampla sobre questão da homossexualidade das detentas, de como elas se diferenciam, quais as denominações usadas e de como, segundo ele, “paradoxalmente, talvez a cadeia seja o único ambiente em que a mulher conta com essa liberdade.”

E o autor também conta em dois capítulos bem interessantes sobre o P.C.C (Primeiro Comando da Capital) ou apenas Comando, a facção criada logo depois da implosão do Carandiru e que rege o tráfico em metade do país, e que também lidera “todos os presídios femininos paulistas e mais de 90% dos masculinos. Segundo o Ministério Público de São Paulo, suas raízes se espalharam para 27 unidades da Federação e até para o Paraguai, Bolívia, Colômbia, Argentina e Peru.” Ele explica como funciona a hierarquia e todas as regras dos membros do Comando e como isso se desenrola no dia a dia dessas mulheres.

“- Para nós, das duas uma: ou você corre com o Comando, ou corre do Comando”

Mesmo tendo uma ideia de como é uma prisão, meu conhecimento sobre o sistema carcerário é quase que totalmente ignorante e até inocente. Muitos dos detalhes apresentados pelo Varella, foram de extrema importância e me alertaram para procurar entender um pouco mais sobre essas questões. Porém as histórias contadas sobre a internas me pareceram “mais do mesmo”, o que não significa desimportante, ok?! Mas a forma como o autor as coloca, a sua visão dele sobre tudo isso se mostra um pouco rasa.

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Além de como o Comando se interpõe na rotina delas e de detalhes sobre como a hierarquia é composta, não há, por exemplo, um aprofundamento do pensamento geral sobre o tratamento e a vida cotidiana das presas. Quando lemos os diálogos e depoimentos ao longo do livro, nota-se muito que os relatos quase que exclusivamente se concentram na vida delas antes da prisão, dos crimes que cometeram, dos vícios. O que eu percebo é que há realmente um exposição do sistema e dos problemas sociais recorrentes, mas de uma forma menos intensa do que esperava. Senti falta disso e estava buscando um tom mais denunciativo, uma crítica mais explícita e isso não encontrei aqui.

Mas, embora tenha algumas ressalvas, Prisioneiras é um livro de fato sensível e muito instrutivo, que se faz necessário não só pela boa leitura, mas porque nos instiga a conhecer e observar um pouco mais sobre o sistema prisional e as deficiências da sociedade.

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ISBN-13: 9788535929041 | ISBN-10: 8535929045 | Ano: 2017 |  Páginas: 280 | Editora: Companhia das Letras


Drauzio Varella
é médico cancerologista, formado pela USP. Nasceu em São Paulo, em 1943. Foi um dos fundadores do Curso Objetivo, onde lecionou química durante muitos anos. No início dos anos 1970, trabalhou com o professor Vicente Amato Neto, na área de moléstias infecciosas do Hospital do Servidor Público de São Paulo. Durante 20 anos, dirigiu o serviço de Imunologia do Hospital do Câncer (SP) e, de 1990 a 1992, o serviço de Câncer no Hospital do Ipiranga, na época pertencente ao INAMPS.


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 Esse livro foi enviado pela editora Companhia das Letras. para resenha no blog. Em compromisso com o leitor, sempre informamos toda forma de publicidade realizada pelo blog 

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