Julian Gruda, Jules Kryda, Roger Binet. Um garoto no auge de seus 13/14 anos, com vários nomes e diferentes estilos de vida, e cheio de histórias impressionantes para contar. Essa é a história real contada em “O Menino que Falava a Língua dos Cães” (Bertrand Brasil, 2018), obra de estreia da polonesa Joanna Gruda, em que ela nos conta a vida de seu pai. E antes mesmo de te dizer tudo que achei dele, já posso adiantar que é apaixonante.

Dividido em três partes, o livro acompanha a vida de Jules desde que sua mãe, Lena, descobre que está grávida até a reorganização da vida do garoto após a Segunda Guerra Mundial, quando ele já tem seus 14 anos de idade. Conhecemos a história do menino por suas próprias palavras, e conseguimos entender que ele está nos contando algo que aconteceu há muito tempo atrás, pois ele “pausa” a sequência de algumas cenas para nos contar algo que tenha descoberto anos mais tarde, ou entrelaça comentários dotados de uma sabedoria que só a maturidade poderia lhe dar.

O protagonista Jules começa a história nos contando sobre seus avós, e vai avançando na linha do tempo de seus familiares até chegar ao relacionamento dos pais, e de como ele próprio veio ao mundo. Lena e Emil, os pais do garotinho, são militantes engajados que enxergam no comunismo uma forma de governo justa e benéfica para a Polônia. Distribuindo panfletos e jornais de divulgação da causa, em pleno ano de 1939, o casal vive uma vida quase nômade, fugindo da perseguição das autoridades. Jules vem ao mundo nesse cenário, e para que não seja prejudicado pela correria da vida dos pais, eles decidem deixá-lo aos cuidados da tia paterna, Fruzia, e seu esposo Hugo. O garoto passa parte da infância acreditando que o casal é sua família, até que Lena resolve levar o menino para sua própria casa em Paris, na França, e ele descobre sua verdadeira filiação.

Quando Emil é acusado de traição e obrigado a se afastar do Partido Comunista, Lena também precisa afastar-se de Jules, para que não haja perigo de algo ruim acontecer ao garoto. Assim ela o coloca no orfanato Futuro Social, onde o garoto começa a se sentir – finalmente – pertencendo a algum lugar, com amigos para brincar e uma rotina mais ou menos normal para uma criança. Mas como a vida é uma caixinha de surpresas, adivinhem só: estamos falando aqui de um período em que a Segunda Guerra Mundial já lançava algumas faíscas do que se tornaria um enorme incêndio, semanas adiante.

Com a chegada da guerra, a vida de Jules se torna ainda mais agitada: o Futuro Social é fechado e ele inicia uma peregrinação entre várias casas e cidades, escondendo-se das autoridades que já ameaçavam seus pais e, agora que o menino também demonstra ser um comunista revolucionário, o ameaçam também. Jules conta ao leitor sobre como eram cada uma das casas onde ficou, o que sentiu por cada ”mãe” que teve ao longo da infância, cada amigo com o qual viveu suas aventuras e até mesmo a primeira menina com quem começou a sentir o que ele chama de “reações fisiológicas”.

“O Menino que Falava a Língua dos Cães” é um livro para ser lido com um copo de café ou chocolate quente ao lado, num ambiente calmo e com uma trilha de piano ao fundo. Ao menos para mim, esse foi o clima que pareceu apropriado para a leitura. Não temos uma história cheia de ação, tiros, bombardeios e momentos de fortes conflitos. É um drama real sobre um menino que sofreu, sim, mas que também soube observar as belezas e sutilezas em cada local onde esteve. É uma história que se passa no auge da grande guerra que mudou o rumo do mundo, com certeza; mas o personagem, aqui, vê essa guerra como algo distante que ele não consegue alcançar com sua curiosidade infantil. Temos em Jules um personagem real muito bem transcrito nas palavras de Joanna Gruda. Conseguimos enxergar o menino curioso, sem nenhum sentimento forte pela mãe (que ele quase nunca via), mas capaz de alimentar um carinho eterno por quem lhe fizesse bem; tal como o que ele demonstra por Arnold e Geneviève.

Uma das grandes qualidades da obra, para mim, é o fato de mostrar um mesmo evento já relatado muitas vezes na literatura, por uma perspectiva bastante diferente. Aprendemos com o texto de Joanna Gruda que a guerra marcou cada vida de uma maneira: algumas, de forma violenta nos campos de concentração; outras, de forma distante enquanto fugiam de autoridades; algumas, ainda, de forma ativa enquanto lutavam nas frentes de batalha. E mesmo distante dos bombardeios e do horror, ainda é possível sentir a vida de Jules sofrendo as consequências do momento de tensão que engolia a sociedade. Mais tarde, conseguimos ver até um plano maior dessas consequências, em todos ao redor do personagem principal. Mas contar isso seria spoiler, então shhh!

Devo dizer que esse livro foi uma boa descoberta de 2018, e me afeiçoei demais a vários personagens, tais como Arnold, Geneviève e o próprio Jules; um garoto cuja personalidade forte se molda aos olhos do leitor, em um relato que nos encanta. É um livro que nos transporta para um dos períodos mais turbulentos da história mundial, mas que, nas mesmas páginas, nos traz de volta à pureza e a liberdade da infância. É uma história que poderia ser muito mais pesada, caso tivesse o ponto de vista de um adulto, e por mais que saibamos que a narração é feita por alguém experiente, faz diferença encarar os acontecimentos com o olhar infantil, livre do peso da maturidade.

O único ponto que eu fiquei sem compreender foi a respeito da escolha do título da obra. Ao iniciar a leitura, esperava algo que conectasse mais o personagem Jules aos animais, ou no mínimo aos cães, visto que o título e a arte da capa parecem guiar diretamente a isso. O que eu, Francelle, entendi, foi que essa conexão foi rasa demais para ocupar um lugar de tamanho destaque como o título da obra. Nesse sentido, me pareceu mais acertada a escolha do título norte-americano, modificado do original “L’enfant qui savait parler la langue des chiens” para “Revolution Baby” (algo como “filho da revolução”), que transmite um pouquinho do cenário em que Jules é gerado e criado, assim como a personalidade do próprio garoto. Você, que já leu essa obra, conseguiu apreender algo diferente a respeito disso? Entendeu o sentido da escolha do título? Deixe sua opinião nos comentários desse post, porque eu vou adorar sanar essa dúvida que permanece na minha cabeça.

Quero atentar para alguns errinhos de português que, pelo visto, conseguiram passar pela revisão. Eles atrapalham um pouquinho quando aparecem, mas a releitura da frase e sua devida contextualização conseguem nos situar novamente. Além disso, a diagramação do livro é muito boa (com letras grandes e linhas bem espaçadas) e os capítulos são curtinhos, fluindo muito bem. Sendo assim, “O Menino que Falava a Língua dos Cães” é uma leitura que indico demais para esse inverno que chega aos pouquinhos.

Onde Comprar:
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ISBN-13: 9788528622379| ISBN-10: 8528622371 | Ano: 2018 | Páginas: 272 | Editora: Bertrand

Joanna Gruda chegou em Trois-Rivieres, no Canadá, de barco aos dois anos de idade. Ela trabalhou no teatro por muitos anos e é tradutora e editora. “Revolution Baby”, baseado na história real de seu pai, é seu primeiro romance.

{ Esse livro foi enviado pela editora Bertrand Brasil para resenha no blog. Em compromisso com o leitor, sempre informamos toda forma de publicidade realizada pelo blog 

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