No início do século (em 2000), 130 pessoas LGBT foram mortas no Brasil. Dezessete anos depois, o número subiu para 445. Os dados, de um levantamento realizado pelo Grupo Gay da Bahia*, expõem o lado prático – e trágico – daquela mesma homofobia teórica que já ouvimos em piadas de mau gosto ou em comentários depreciativos. Muito mais do que números, o levantamento do GGB expõe que toda a tecnologia e informação adquirida nesses dezessete anos ainda não foram o bastante, e a cada 19 horas, uma pessoa é morta ou acaba se suicidando, apenas pelo fato de não pertencer aos velhos padrões impostos para sua sexualidade.

Por mais que o preconceito contra gays, lésbicas, travestis e transexuais seja uma pauta frequente, e mesmo com toda a visibilidade que a causa LGBT vem adquirindo, algumas vertentes de intolerância ainda permanecem obscuras. Entre essas vertentes, está o intocado – e quase sagrado – futebol. Entre artistas e celebridades que a mídia fofoqueira anuncia como “saindo do armário”, quantos deles são jogadores de futebol? Será que simplesmente não existem gays entre os jogadores de grandes times brasileiros? Ou será que existem gays e, por medo, eles preferem esconder sua própria essência para garantir seus empregos?

Esses foram os questionamentos que a obra “O Outro Lado da Bola” colocou na minha mente, desde que li sua sinopse pela primeira vez até a leitura de sua última página. A HQ, roteirizada por Alvaro Campos e Alê Braga e ilustrada – lindamente – por Jean Diniz, chegou às livrarias como um lançamento da editora Record em pleno mês de Copa do Mundo na Rússia. A proposta da graphic novel chama a atenção pela coragem, visto que essa união entre os temas homofobia e futebol é raras vezes abordada na literatura. Eu mesma ainda não tinha visto nenhum outro enredo muito parecido.

Em “O Outro Lado da Bola”, acompanhamos o jogador de futebol Cris em um dos momentos mais críticos de sua vida e carreira. Após o brutal assassinato de um ex-namorado, ele se declara homossexual em uma entrevista ao vivo na TV. O que se segue é um caos entre os patrocinadores, os familiares, o clube em que ele joga e seus torcedores. O clube Alvinegro Paulista se divide entre a necessidade de manter o jogador – que por sinal é um craque no time, e a vontade de se livrar do cara que trouxe tamanha polêmica para suas arquibancadas.

No meio de todo esse clima pesado, Cris passa de herói a demônio para a torcida, que o trata com uma hostilidade quase desumana. Enquanto isso, acompanhamos a influência de políticos corruptos (e, principalmente, da bancada evangélica) nas decisões de seus superiores.

Aliás, o que essa HQ consegue transmitir com verossimilhança é, justamente, a perversidade humana. Observamos a influência do dinheiro, do poder e da imagem na política e no futebol, a violência e incapacidade de respeitar o outro, o machismo e, claro, a corrupção explícita entre o clube e os líderes das torcidas organizadas. Temos palavras de baixo calão o tempo todo, descaso com o sentimento alheio e egoísmo puro. É algo que enoja e abala o leitor, ao mesmo tempo em que temos noção do quanto o ficcional, nesse caso, apenas evidencia o que já é real.

O mais interessante na experiência de ler essa obra foi, para mim, refletir a respeito do quanto uma decisão pessoal sobre algo extremamente individual foi capaz de gerar tamanho tumulto entre terceiros. Tudo isso por um único motivo: preconceito. Porque, por alguma razão, o fato do grande jogador Cris ter se apaixonado por outro homem foi capaz de alterar os negócios de um clube de futebol inteiro. E eu fiquei me perguntando: o que uma coisa tem a ver com a outra? Por acaso ele perde seu talento em campo por ter tido um relacionamento homossexual? Por que a vida afetiva de alguém interfere tanto em altos escalões de poder político, esportivo e religioso? Não era mais fácil cada um cuidar da sua vida?

A leitura de “O Outro Lado da Bola” foi proveitosa em levantar várias questões e se propor a imaginar um cenário extremamente possível no Brasil, fazendo isso com sabedoria. Mas não posso deixar de apontar algumas poucas coisinhas que me incomodaram durante a leitura, todas em aspecto mais técnico. Por mais que eu não tenha tanto contato quanto gostaria com os quadrinhos, acredito que o fluxo de uma história deva ter uma continuidade bem definida, mesmo quando alterna visões ou períodos temporais entre os capítulos. Nesse sentido, achei a narrativa da HQ um pouco “embolada” entre os flashbacks e as cenas atuais, o que me levou a perder um bom tempo avançando na leitura e voltando algumas páginas, para tentar me localizar entre um ponto e outro. Em alguns momentos, mesmo entre cenas próximas, eu tive a impressão de ter perdido alguma coisa, inclusive.

Também senti falta de um aprofundamento maior do personagem Augusto, o ex-namorado de Cris que, após ser assassinado, dá o pontapé inicial no plot da história. Ele é quem motiva o jogador protagonista a contar a verdade e se libertar das amarras impostas pela sociedade, e o leitor acaba conhecendo muito pouco de sua história, perdendo a oportunidade de sentir ainda mais empatia e conexão com ele. Além disso, senti falta de um fechamento mais “redondinho” em relação a outros momentos da história, mas se eu citar quais momentos são esses posso estar dando spoilers sem me dar conta.

Melhor parar por aqui, mas só para constar: não encontrei uma conclusão certinha para cada personagem, porém – entretanto, todavia e contudo – se você for ler a graphic novel se atendo ao enredo principal, que gira em torno do drama vivido por Cris após a morte de Augusto, já será uma leitura bem satisfatória.

O que me cativou nessa história, mesmo que eu nem curta tanto assim o mundo futebolístico, foi a coragem e a fidedignidade da trama em nos fazer refletir sobre algo que pode estar acontecendo hoje mesmo, entre os maiores clubes de futebol do Brasil, enquanto nós estamos preocupados apenas com a classificação dos times nos campeonatos. Fica aqui registrado o meu desejo, como humilde leitora, de que existam cada vez mais livros com essa atitude.

Onde Comprar:
Submarino

{ Esse livro foi enviado pela editora Record para resenha no blog. Em compromisso com o leitor, sempre informamos toda forma de publicidade realizada pelo blog 

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