mulheres

No final do ano eu sempre faço um balanço de leituras, felizmente os saldos são positivos. Só que em2015 eu tive um problema: eu quase não li mulheres.

Aquilo mexeu comigo.

Eu sempre pegava os livros de autores homens primeiros e de alguma forma bizarra, na minha lista de preferidos estão Palahniuk, Dante e Fitzgerald. Nenhuma mulher estava ali, pensei em como me sentia como mulher e uma mulher que tenta escrever e também falar sobre livros. Aquilo teve um impacto muito grande na minha forma de encarar a literatura.

Por isso, algo mudou em 2016, mas não foi algo fácil.

Mudar um hábito é algo difícil, mas precisamos e não é impossível. E incrivelmente eu comecei a perceber coisas ainda mais incríveis na minha forma de sentir a experiência de leitura.

Incrivelmente eu não parei de ler autores homens, por ler autoras mulheres. Magicamente eu não comecei a falar mal dos livros antes de pelo menos dar uma chance. Surpreendentemente descobri autoras incríveis para estar ali, naquele panteão de autores preferidos.

Ler mais mulheres não é parar de ler qualquer outro tipo de livro, é abraçar a diversidade, é começar a olhar histórias de outra forma, é se sentir inclusa dentro da literatura, é perceber melhor quando um autor, seja ele de qualquer gênero, faz para que a literatura seja inclusiva, representativa.

A gente costuma dizer que livro nacional é ruim, que autoras mulheres não escrevem bem, que tal pessoa não pode escrever gênero x, que onde já se viu youtubers escrevendo livros, que livros eróticos não são literatura. Só que esquecemos que não existem só uma pessoa no mundo.

O mundo é feito de pessoas diferentes, um livro que conversa com pessoa x pode não conversar com você e vice e versa, só que é importante que as pessoas sejam representadas, que a literatura também faça o seu papel na hora de representar  a diversidade de seus leitores.

Se você acha que literatura erótica não pode ser literatura, tente Hilda Hist. Se você acha que mulheres não conseguem escrever terror, eu posso te fazer uma lista. Se você acha que não é importante livros adolescentes, Ava Delaria está ai para te provar como os livros podem te ajudar a resolver problemas muito maiores e deixar a adolescência mais leve, mais fácil. Se você acha que não tem como fazer um livro incrível colocando discussão de gênero, Ursula Le Guin e Caitlín R. Kiernan podem dar muitos tapas no seu preconceito.

A literatura sempre esteve presente para nos abrir os olhos, para nos fazer pensar, questionar, olhar o mundo de forma mais ampla. Se fechamos essa janela, se a tampamos com madeiras e não a deixamos escancaradas, aos poucos as portas se fecham, as cortinas nunca mais se abrem e ficamos presos, entregues a loucura de um pensamento igual, raso e fraco.

Ler mais mulheres não te faz ler menos homens, não existe uma ameaça aqui. Ler mais mulheres te faz apenas dar a chance para que uma mulher não precise se esconder atrás de um pseudônimo masculino para poder vender seus livros, pagar suas contas.

Ler mais mulheres não é dizer que as mulheres escrevem melhor que os homens. É apenas entender que elas tem a mesma capacidade de escrever tão bem quanto um homem. Que eles podem ter o mesmo número de prêmios e espaço nas prateleiras.

Ler mais mulheres não fará ter menos homens sendo publicados. Fará com que menos julgamentos aconteçam quando uma mulher decidir levar a vida de escritora. Fará com que as pessoas aceitem com facilidade que a mulher possa escolher se dedicar aos estudos, a uma vida acadêmica ou literária.

Mas e afinal, o que aconteceu quando você começou a ler mais mulheres?

Eu comecei a ter mais coragem para escrever.

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