“Feliz é o destino da inocente vestal. Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida. Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Toda prece é ouvida, toda graça se alcança” (Alexander Pope)

Imagine que você pudesse apagar da sua memória acontecimentos ruins e pessoas que deixaram o seu coração partido, permitindo que você pudesse tocar a sua vida sem essa triste lembrança. Esse é o enredo principal do filme “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, escrito por Charlie Kaufman e dirigido por Michael Gondry. Um filme que já era muito “Black Mirror” antes mesmo de Black Mirror existir.

Após o término de um relacionamento, Clementine (Kate Winslet) decide apagar Joel (Jim Carrey) de todas as suas lembranças. Desolado com o afastamento e com o estanho comportamento de sua ex-namorada, Joel descobre que foi apagado da vida dela e recorre ao mesmo tratamento. “Tecnicamente falando, o procedimento é um dano cerebral” – ouve Joel do Dr. Howard Mierzwiak (Tom Wilkinson) ao questionar sobre os riscos envolvidos.

No entanto, após iniciar o procedimento, conectado à máquina, já adormecido e preso em sua própria mente, Joel desiste do plano de se esquecer de Clementine e, dentro de seus pensamentos, procura meios de guardá-la em lugares que não fossem detectados durante o processo.

A história não é contada em ordem cronológica, e mistura momentos de tempo atual, flashbacks e Joel dentro de sua própria mente, o que leva o expectador a ser surpreendido o tempo todo com reviravoltas. A cor do cabelo de Clementine ajuda o expectador a se localizar na narrativa, assim como o carro de Joel. Os efeitos especiais também ajudam: durante o procedimento de esquecimento, o cenário é literalmente apagado.

As várias menções ao dia dos namorados e a clínica cheia no mês de fevereiro (dia dos namorados lá na gringa é 14 de fevereiro) dão o tom romântico do filme e mostram o quão desesperadamente as pessoas querem parar se sofrer por amor. Mas não é só um coração partido que pode ser esquecido por esse procedimento. Enquanto Joel aguarda a consulta na sala de espera com os objetos referentes aos momentos que ele teve com Clementine (fotos, CDs, roupas etc.), de um lado ele vê um homem segurando um troféu e, do outro, uma senhora com fotos e outros objetos pertencentes a um cachorro.

Além disso, a imaturidade ou fraqueza ao lidar com os próprios sentimentos e a possibilidade da banalização do recurso ao esquecimento também são apresentados no filme. Na mesma sala de espera ouve-se, ao fundo, a voz de Mary (Kirsten Dunst), funcionária da clínica, ao telefone explicando a uma paciente que a mesma não poderia submeter-se ao procedimento três vezes em um mês.

O toque “Black Mirror” do filme está no fato de a tecnologia poder ajudar as pessoas a modificarem as suas próprias lembranças e na luta de Joel para não apagar Clementine, uma vez iniciado o procedimento. Quão partido está o seu coração para fazer você recorrer a um dano cerebral? As nossas lembranças constroem o nosso caráter ou podem ser descartadas assim que queremos? A existência da possibilidade esquecermos momentos ruins poderia tornar-nos imaturos para lidar com as situações difíceis da vida?

O título é baseado em trecho um poema de Alexander Pope, citado no preâmbulo desta resenha. O final do filme pode ser meio brega, mas adiciona um questionamento interessante: até que ponto o amor e a atração entre as pessoas são provocados pelo cérebro?

 Às vésperas do lançamento da próxima temporada de Black Mirror, marcada a próxima sexta-feira (29/12), o filme pode ser um bom “esquenta” ou mesmo uma boa “saideira”.