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A Cultura da Leitura – Parte 1: A Formação do Cidadão Leitor e o Advento da Geração Multimídia

 Um dos grandes benefícios da era digital foi a de poder agrupar rapidamente indivíduos com semelhanças ideológicas e culturais, possibilitando-os de tomarem conhecimento dos seus pares quanto às semelhanças que possuem. A pessoa pode finalmente expandir seus contatos, dando-lhe a percepção do número gigantesco de outras pessoas que pensam e agem exatamente como ela. A solidão e a esquisitice tornaram-se compartilhadas, a descoberta de que não era somente um pequeno grupo escolar o dono de tais pensamentos. Os casos isolados de jovens amantes da literatura, por exemplo, puderam se associar com comunidades gigantescas de amantes da arte escrita e da produção de ficção. No entanto, nós, como brasileiros, ainda somos um povo que lê pouco – muito embora este cenário esteja mudando gradativamente. Mesmo nos padrões latino-americanos, investimos exageradamente menos em bibliotecas e o número de livrarias que atende as comunidades é desanimadoramente incomparável com, por exemplo, a quantidade de livrarias por pessoa no Chile. Qual é a problemática, onde podemos ver um cenário otimista em nosso país e podemos confiar em tal perspectiva?

  A formação cultural de um cidadão provém da escola, do lar e do círculo de amizades da criança (deixaremos de lado este último, que compõe os colegas da rua, as crianças da igreja que frequenta, os filhos dos amigos dos pais – este grupo, apesar de contribuir com a formação da criança, dificilmente terá vínculo com a prática da leitura na infância). O desenvolvimento do prazer pela leitura tem pesos iguais tanto no primeiro caso (a escola) quanto no segundo (o lar), mas o primeiro ser responsável pela aversão à prática é tão mais preocupante. O processo de leitura após o período de alfabetização vai se caracterizar na grade escolar como meta para a conclusão de um ciclo: a apresentação de um trabalho, a conclusão de uma prova, etc. O livro se torna a partir de então um objeto temeroso, assim como uma prova, onde a finalidade é a pontuação necessária para passar um exame e não a apreciação da história ou do estilo literário em si. Nos casos do ensino médio ou dos cursos preparatórios para um vestibular este problema se agrava e é o maior responsável pela aversão a literatura, principalmente a nacional, onde os títulos são de completo desagrado do aluno e de um nível, em sua maioria, acima daquele em que se encontra o vestibulando – talvez se houvesse uma grade que atendesse ao processo de amadurecimento literário do cidadão desde sua incursão na escola, ele estaria preparado para consumir os clássicos literários da língua portuguesa, mas ele está, em maioria absoluta, longe deste nível; como veremos mais adiante, a leitura de uma produção acima da compreensão total do indivíduo é completamente aceitável, mas estamos falando aqui de um nível ainda inatingível a ele. A meta da leitura é desvirtuada e o meio para concluí-la pode ser “adulterado”; não se faz mais necessária a leitura da obra em si, mas um resumo, por exemplo, que lhe forneça o necessário para prestar o exame. A escola torna-se a força de criação do medo à literatura, exatamente contrária à sua real proposta.

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  Colabora com este problema escolar a falta de identidade cultural. Nós, como indivíduos brasileiros, não assimilamos uma personalidade cultural de determinado grupo, principalmente no que diz respeito a lendas, tradições ou músicas, com exceção daquelas que se tornaram orgânicas às classes distintas e generalizadas no popular nacional. Da mesma forma, nos distanciamos do cotidiano ou dos problemas que haviam em determinada época de nossa história, fazendo-nos perder o interesse com a escrita feita justamente para registrar o caráter de uma determinada época. A falta de assimilação da identidade cultural prejudica especificamente a leitura de obras brasileiras, na qual o leitor não possui qualquer interesse, pelo fato de não lhe ser próximo; mas prejudica tanto quanto a produção literária contemporânea. O autor, desvinculado do regionalismo, procura reproduzir aquilo que não lhe é comum e acaba por não escrever algo verossímil – já dizia Tolstoi que para ser universal deve-se começar pintando sua própria aldeia. Tais produções afastam o leitor de aceitar esta obra, por ver um brasileiro copiando características literárias que não lhe pertencem (no que está vinculado a, ainda, falta de amadurecimento do autor – mas tal caso pode prejudicar toda a sua carreira literária, matando-a logo a princípio).

  O segundo provedor de formação cultural, o lar, em sua característica nacional sofreu uma perversa incursão da tecnologia, desmotivando o interesse literário. O monopólio da televisão, um meio de comunicação baseado na informação auditiva e visual sem leitura, a partir da década de setenta, afastou toda a família do vínculo obrigatório com a leitura. Os jornais impressos foram substituídos pelo televisivo, os romances clássicos foram adaptados para as telenovelas, as histórias em quadrinhos pelos programas infantis matinais. A importância dos jornais impressos, dos romances clássicos e dos quadrinhos nunca foi desmerecida durante todo este tempo, mas em se tratando de Brasil, foi preferida pela elite e acabamos por ver sua deterioração em prol do audiovisual. Formou-se uma geração de pais que não estimulariam os filhos à leitura ou teriam dificuldade em fazê-lo. A grande massa aderiu à passividade do hábito de assistir televisão, processo mais fácil para adquirir informação do que a leitura, onde se exige interpretação e revisão (releitura). Se o cenário era apocalíptico, eis que surge uma mídia a princípio considerada vil: a internet. Contrariando as expectativas, e completando o já descrito no primeiro parágrafo deste texto, a internet complementou o que faltava a televisão. Ela é um meio de comunicação baseada também na informação auditiva e visual, no entanto com leitura – visto que o visual tem supremacia ao auditivo na internet. A adesão colossal de toda uma geração a esta nova tecnologia contribuiu para o novo despertar da leitura e estimulou a busca por informação nova e pelo conhecimento do antigo, também no que diz respeito á produção literária.

  A forma deste novo meio de comunicação criou um hábito novo na juventude, a busca pelo multimídia. A possibilidade de ver um texto, um desenho e um vídeo do mesmo tema exportou um modelo que já vinha sendo explorado pelo mercado há tanto tempo, mas longe do conhecimento do grande público. Tornou-se fácil para o jovem descobrir um livro baseado no seu filme preferido, uma música inspirada numa história e assim por diante. A busca por maiores informações e por ter o conhecimento pleno daquilo lhe agrada fez uma legião de jovens migrar do cinema para os livros e, num movimento bumerangue, dos livros de volta ao cinema; o mercado se adequou no formato escolhido pela nova geração e usou a internet como tal ferramenta. As redes sociais deram importância aos autores intelectuais, mas foram as produções hollywoodianas quem conquistaram mais fieis. Tolkien sempre fora famoso, mas seria uma febre sem as produções neozelandesas de Peter Jackson? J.K. Rowling teria se tornado tão rica caso Harry Potter não ganhasse uma cine-série? Num ponto que se assemelha ao do ovo e da galinha, não há dúvidas que sem a qualidade dos livros não haveria o interesse comercial na produção dos filmes. Crepúsculo, neste caso, fez mais sucesso por conta da interpretação de Kristen Stewart e Robert Pattinson ou diminuiu a qualidade (que não questionamos aqui) da obra literária em que se baseia? A resposta é, teoricamente, pessoal, mas bem poderia ser analisada por algum “especialista em Stephanie Meyer”.

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  Cabe a nós explorar na próxima postagem qual o malefício da interferência desta nova mídia na literatura e especular o que acontecerá daqui para frente com a comentada nova geração de leitores.

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