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O dia que o RPG me ajudou a me despedir

Um relato um pouco pessoal demais sobre os motivos pelo qual o RPG é um hobbie que transforma pessoas.

Antes de começar eu gostaria de conversar com você sobre alguns pontos:
1º Esse é um relato muito pessoal e talvez em alguns momentos ele não faça tanto sentido, já peço desculpas.
2º Jogar RPG nunca vai substituir os anos de terapia e conversas com um profissional qualificado.
3º Sempre converse com seus jogadores sobre o que pode ou não ser abordado no jogo, muitas coisas podem conter gatinhos e pessoas lidam de diferentes formas com cada situação.

Dito esses avisos, informo que esse texto pode conter gatilhos, o tema vai abordar sobre luto, perda de familiares e crises de pânico.

Talvez essa história comece com uma pequena Anna de uns 7 anos de idade, na primeira vez que ela entendeu o que era perder algo. Era noite e meu pai tinha acabado de chegar em casa, descobrimos que minha cachorra foi envenenada. A noite não poderia ser pior e infelizmente ela não sobreviveu mas de certa forma aquele momento triste me preparou para o que estava por vir. Lembro do meu pai sentado comigo no degrau da porta de entrada mostrando as estrelas e me explicando o que tinha acontecido. Ele me contou que ela nunca realmente iria embora e quando eu sentisse muita saudade poderia olhar para o céu, as estrelas me mostrariam o quanto ela caminhou do meu lado durante o dia, me protegendo.

Alguns anos depois eu repeti as palavras dele para o meu irmão de 5 anos em um dia das crianças quando voltamos do enterro do nosso pai.

Eu gostaria de dizer para vocês que lidar com essa perda foi fácil, que lidar com a morte do meu pai aos poucos foi se tornando mais fácil, mas a verdade não é um final feliz e eu ainda tinha 20 anos quando falava sobre aquele dia na terapia e finalmente comecei a viver o luto.

Meu pai saiu de casa em uma quarta feira para jogar futebol como ele fazia todas as quartas-feiras. Mas aquela foi diferente, pois não foi ele quem me acordou, mas minha tia dizendo que ele tinha morrido.

E por mais que você esteja julgando minha tia pensando que ela talvez tenha sido insensível ao lidar com uma criança de 9 anos assim, eu te digo que pra mim foi a melhor forma que ela poderia ter falado. Meus pais sempre me disseram a verdade sobre tudo que estava acontecendo, não fazia sentido mentir ali, mesmo que eu tenha negado enquanto processava aquela informação e tentava entender o que significava realmente o que aquilo estava acontecendo.

O problema foi que eu não me despedi do meu pai enquanto ele saia aquela noite. Eu não disse tchau, eu não dei um beijo nele e isso sempre foi muito difícil.

E eu sei que você já está se perguntando quando chega a hora do RPG, então vamos para ela. Há alguns meses nós começamos uma mesa de Descent Into Avernus uma aventura da Wizard’s Of the Cost que eu tinha muita vontade de jogar. O convite para jogar nessa mesa em stream foi recebido com muita felicidade, criei minha personagem (Virgínia) que infelizmente teve seu fim cedo de mais. O que me levou a pensar em uma nova personagem e assim nasceu SUNRISE, uma meio elfa, Warlock Celestial que tem Ilmater como patrono que tem como objetivo resgatar a família que estava em Elturel quando ela desceu ao inferno.

Sunrise é uma personagem Leal e Boa, ingênua e que nunca tinha realmente pensado em se tornar uma aventureira, ainda mais salvar os pais. Com o decorrer da história ela cresceu muito e está sendo incrível acompanhar a evolução dela, desde descobrir seu carinho se transformando em amor pela Hope (uma barda tiefling que também faz parte da party), até realmente sentir pela primeira vez vontade de se vingar por algo.

O ponto é que como toda jogadora de RPG eu sabia qual era o perigo em colocar no meu background aqueles personagens chamados Pai e Mãe em uma aventura em que eles teriam ido para o inferno. Eu pensei nos gatilhos que aquilo poderia me provocar e sinceramente achei que já estava totalmente resolvido. Eu tinha feito terapia (eu ainda faço), tinha vivido minhas crises de pânico na adolescência. Mas agora eu era adulta.

Chegamos em um momento crucial da história em que Sunrise se depara com seus pais no inferno e descobre que seu pai está a beira da morte e mesmo tendo poderes ela não tem poder suficiente para salvá-lo. Seu grupo entra em alguns desafios em busca de algo que pode lhe dar mais tempo de vida, mas de alguma forma eu como player sabia que aquilo seria inevitável. Ele iria morrer.

Se não estivéssemos em Stream eu provavelmente teria falado “beleza, corta aí para o futuro e vamos lá”. Mas essa era parte do entretenimento, as pessoas queriam ver como a Sunrise iria lidar com aquilo e eu também.

Então eu finalmente me despedi do meu pai.

Eu sei que você esperava algo mais grandioso, mas Sunrise teve seu momento e por um momento eu me deixei de coração aberto para viver aquilo, eu sabia que era um momento dela como personagem, mas acabei me aproveitando para dizer algumas palavras que eu sempre quis dizer, chorar e viver aquele momento que o destino tinha me privado.

Bem, lá no jogo os deuses do RPG nos deram mais uma chance de continuar e o final de certa forma foi mais feliz que o esperado, e você pode acompanhar o jogo inteiro no youtube na playlist abaixo:

Quando a mesa acabou e eu fui deitar eu pensei que estaria completamente destruída. Mas de certa forma meu coração estava em paz e com o coração tranquilo por ter de volta no RPG um momento que a vida tinha me negado.

Talvez você não consiga compreender pelas minhas palavras o quanto isso foi importante para mim. Talvez eu ainda não tenha conseguido agradecer ao Mestre (obrigada Gruntar) e aos jogadores (Lights, Tim, Sembiano e Will), pelo que todos eles fizeram pela Sunrise durante esse jogo. Mas sei que eu tive a noite mais tranquila que eu já tive há anos. Sei que vivi esse momento como personagem e como pessoa e talvez o Sr. Dionício, onde quer que ele esteja tenha sentido meu carinho naquele momento.

Eu gostaria de reforçar que esse momento só foi possível por estar em um ambiente seguro e com pessoas que eu confio. Apesar de ser uma ferramenta incrível, jogar RPG também pode ser um momento estressante e trazer a tona todos os seus medos, jogar em um ambiente seguro onde você pode se apoiar em alguém ou segurar a mão da Hope caso precise é fundamental.

No fim esse relato é para te mostrar que o RPG as vezes tem desses momentos que nos surpreendem, que nos ensinam e nos ajudam a dizer adeus.

Eu realmente amo essa foto e o sorriso dele aqui.

Obrigada por ter lido até aqui, espero que você viva momentos incríveis jogando RPG também!

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