O feminismo além do feminino, por bell hooks

O feminismo além do feminino, por bell hooks

Gloria Jean Atkins nasceu em 1952 e se tornou bell hooks em homenagem à bisavó materna, de mesmo nome. Antes que você me condene pelo erro gramatical imperdoável de grafar o nome da escritora todinho em minúsculas, saiba que a decisão de oficializar essa grafia foi da própria bell. O motivo? Manter as atenções sobre o conteúdo da obra, e não sobre a pessoa física da autora. 

Caso você não conheça o trabalho dela, bell é uma das teóricas feministas contemporâneas mais aclamadas mundialmente, por seu trabalho dentro e fora do meio acadêmico. Hoje com 66 anos de idade, ela vivenciou a efervescência da geração hippie e o florescimento do desejo de liberdade, seja das convenções sociais, dos padrões de gênero e da sexualidade – esta última, tornando-se manifestação de domínio sobre o próprio corpo. Desde aquela época e até o presente momento, a escritora e acadêmica dedica sua vida às causas do feminismo e da igualdade social e racial.

Na obra “O Feminismo é para Todo Mundo”, lançada no Brasil em edição novinha pelo selo Rosa dos Tempos (editora Record), ela propõe uma ideia simples, porém impensada por muitos teóricos: escrever sobre sua teoria de pesquisa, estudo e vivência de uma forma simples, para o acesso de todos. Colocar o feminismo como algo tranquilo de entender, tirando a teoria do pedestal que a faz complicada e passível de equívocos. Preciso dizer que, desde que eu li a sinopse do livro, fiquei louca para me aprofundar nele e o considerei uma verdadeira utilidade pública (ainda mais para o Brasil de 2019, em tempos de regresso intelectual, não é mesmo?)!

O título da obra já nos passa o “spoiler” da intenção de bell com seu texto, e ela consegue fazer uma boa parte do que se propõe. Daqui a alguns parágrafos eu falo mais sobre os pontos negativos que me incomodaram no livro, mas verdade seja dita: ela escreve de forma fácil, informal, como numa conversa em um café, sobre o que ela entende por feminismo e quais os principais problemas/qualidades/interesses do movimento, desde sua efervescência nas décadas de 60-70 e até hoje. Rapidamente, o leitor compreende pontos interessantes da visão ímpar de bell acerca do feminismo, tais como a ideia de que o movimento não beneficia apenas as mulheres, mas a sociedade em geral; a necessidade de se lutar contra qualquer forma de violência, e não apenas a violência do homem contra a mulher; a visão do homem como alguém a ser conduzido para o apoio ao feminismo, ao invés de um eterno inimigo; etc.

Um dos aspectos que mais me atraiu na maneira como a autora enxerga o movimento foi, sem dúvida, a visão sóbria com a qual ela pontua seus defeitos, refletindo sobre as atitudes a serem tomadas quando pensamos em atrair as novas gerações de mulheres, os homens e a população mais conservadora para a causa. Citando histórias que vivenciou ou que viu de perto com amigas e conhecidas, bell alerta para a polarização do feminismo em duas vertentes: uma que tem como prioridade a equiparação de salários e outra que engloba essa necessidade dentre outros motivos da luta por direitos das mulheres. A autora alerta, também, para a forte rachadura provocada pela disputa de classes e pelo racismo dentro do movimento feminista. Ela esclarece que a união feminina na luta é enfraquecida e deixa de gerar frutos quando mulheres de maior poder aquisitivo se voltam contra as mulheres da classe trabalhadora, ou quando mulheres brancas não se unem com mulheres negras. Tais problemas, presentes na sociedade desde muito antes da luta feminista, precisam de maior atenção, na visão da autora, para que possamos pensar o direito da mulher como um todo, sem subdivisões de “quem merece mais” ou “quem merece menos”.

O conservadorismo também é um entrave para a compreensão real do feminismo, de acordo com bell hooks. Ela aponta que informações menos rebuscadas e acadêmicas a respeito dos objetivos do movimento podem ser de grande ajuda na busca pela compreensão do que é, de fato, o feminismo. Muitas vezes, o que chega às pessoas é apenas o estereótipo da feminista como aquela que odeia homens, que é mal-amada ou “contra a família”. Para bell, no entanto, esses chavões precisam ser modificados para que se possa entender o alcance da luta feminista: não se odeia o sexo masculino, mas sim o pensamento machista que pode vir dos homens ou, infelizmente, de mulheres também; nenhuma feminista é “mal-amada”, o que acontece é que algumas mulheres se juntam à causa após um relacionamento abusivo, e encontram no feminismo a força que precisam para se reencontrarem como mulher; o feminismo não é “contra a família”, mas é a favor do poder de escolha da mulher a respeito da maternidade, visto que o corpo é dela, não uma propriedade de seu cônjuge ou do Estado.

“O Feminismo é Para Todo Mundo” traz a visão da autora com foco no país onde ela vive desde que nasceu: os Estados Unidos. No entanto, bell mantém a mente aberta ao resto do mundo, defendendo a união feminina a nível mundial em prol de direitos iguais às mulheres do ocidente e do oriente. Outro aspecto interessante, ainda nessa visão renovadora da causa, é o incentivo de bell a um novo modo de encarar o feminismo, como um movimento que preza pelas conquistas do passado, mas que chame a atenção e evite os desvios e as desinformações sofridas no meio do caminho até a atualidade. Sendo, assim, uma espécie de “novo feminismo”, livre dos vícios que o desgastaram com o tempo.

Como eu confessei há alguns capítulos, essa obra não tem apenas qualidades. Encontrei alguns probleminhas em seu desenvolvimento que, infelizmente, desmotivaram a minha leitura. E olha que eu sou uma apaixonada pelo assunto! Assim, fiquei pensando: se eu, feminista também, já quis largar o livro, imagina o público alvo imaginado pela autora, formado por pessoas que têm uma ideia erradíssima – e nenhuma paciência para ouvir – sobre o feminismo?

Aqui entre nós, uma das coisas mais agoniantes em uma obra é quando sentimos que ela tem vários trechos de puro “enchimento de linhas”. Outra coisa super chata é quando o autor cita informações que pedem por dados de confirmação, e ele simplesmente não informa fontes, dados, estudos, pesquisas, nadinha. Infelizmente, esses dois problemas acontecem na obra e na escrita da diva bell hooks. Eu fiquei com uma pena enorme por sentir isso durante toda a leitura.

O que acontece é que, em vários momentos, a autora volta a falar sobre temas que já havia citado há um ou dois capítulos atrás. Por exemplo, a gente lê um pensamento sobre a luta de classes no feminismo no capítulo X, e no capítulo seguinte, quando o assunto já é outro, a autora volta a falar o que já tinha dito antes sobre o mesmo assunto. Aí se passam quatro capítulos, tá tudo indo bem, e no quinto capítulo ela volta a falar as mesmas ideias já expostas anteriormente. Se no início a gente fica em estado de “UAU!” com o pensamento – e marca com post-its loucamente, no final da obra já estamos gritando mentalmente: “TÁ BOOOOOM, EU JÁ ENTENDI BELL!”

Além disso, por mais que saibamos o quanto o livro é direcionado aos que não conhecem a luta feminista, e por mais que a gente adore o tom informal – e até didático – escolhido pela autora, é difícil não se sentir incomodad@ quando a gente lê informações e não recebe nenhuma fonte de referência onde a autora embase suas afirmações. Fico até mesmo preocupada com esse problema, pois sabemos o quanto isso pode ser enaltecido como forma de depreciação do movimento feminista, no caso da leitura ser feita por alguém que acredite fielmente nos estereótipos degradantes instaurados pelo machismo ignorante de informação.

Se a autora mantivesse o tom didático que aplica com maestria, incorporando fontes de consulta para os dados que utiliza, e se também encurtasse o livro, retirando todas as constantes repetições, aí ela teria cumprido seu objetivo com perfeição irretocável. Pois a ideia de bell hooks, em “O Feminismo é Para Todo Mundo”, é louvável e merece ser difundida: o feminismo não beneficia apenas as mulheres, mas todas as camadas da sociedade, por sua visão de direitos iguais e convivência pacífica. 

O feminismo não é feito por “mal-amadas”, mas por mulheres fortes que se preocupam com todas as outras, mesmo quando saem de relacionamentos violentos e não acreditam na própria força que ainda têm. A causa feminista não é apenas aquela cena das mulheres ateando fogo em sutiãs, não é apenas a defesa do aborto, não é o ódio aos homens e muito menos a defesa de uma mera equiparação salarial: é muito mais profundo do que isso, e ainda assim é mais fácil de se compreender do que imaginamos em nossas mentes fechadas. O feminismo não é só para os ricos, para os pobres, para os negros, para os brancos, para as mulheres, para os homens: é para todo mundo.

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ISBN-13: 9788501115591  | ISBN-10: 8501115592 | Ano: 2018 | Páginas: 176 | Editora: Rosa dos Tempos

bell hooks é o pseudônimo de Gloria Jean Watkins, escritora norte-americana nascida em 25 de setembro de 1952, no Kentucky – EUA. O apelido que escolheu para assinar suas obras é uma homenagem a tataravó Bell Blair Hooks. A justificativa do nome ser escrito todo em letra minúsculas, é servir a duas funções: distinguir-se de sua parente homenageada, e estabelecer a importância do conteúdo de seus textos em comparação com a sua biografia. bell hooks usou a própria vida como fonte dos seus primeiros estudos sobre raça, classe e gênero, sempre buscando nesses três elementos, os fatores da perpetuação dos sistemas de opressão e dominação. A autora, feminista e ativista social assumida, foi premiada com um ‘The American Book Award’, um dos prêmios literários de maior prestígio em seu país. Entre as influências de hooks, além de Martin Luther King, Malcom X e Eric Fromm, figuram a feminista Sojourner Truth (cujo discurso ‘Ain’t I a Woman?’ inspirou uma das obras de hooks), o educador Paulo Freire, o teologista e padre dominicano Gustavo Gutierrez, Lorraine Hansberry, o monge Budista Thich Nhat Hanh, o escritor James Baldwin, e o historiador guianense Walter Rodney.

{ Esse livro foi enviado pela editora Rosa dos Tempos para resenha no blog. Em compromisso com o leitor, sempre informamos toda forma de publicidade realizada pelo blog 

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Francelle Machado
Francelle Machado

Gaúcha, revisora de textos, estudante de Letras pela UFRGS e jornalista formada pela PUCRS. Fã dos Backstreet Boys e das Spice Girls desde que chegou no mundo, apaixonada por Friends e Twin Peaks, nostálgica pela década de 90 e ~ só um pouquinho ~ viciada em café. Futura tradutora e eterna aprendiz nesse universo mágico chamado literatura.

1 comment

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  1. Lary Zorzenone

    8 de agosto de 2019 at 13:55

    Olá
    Achei a proposta do livro muito interessante. Uma pena que se torna repetitivo e falho em dados…

    Vidas em Preto e Branco

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