os desaparecimentos

os desaparecimentos

Antes de começar, se você quiser entrar no clima, recomendo essa trilha sonora.


Minha avó contava uma história sobre um monstro, ele aparecia à noite próximo ao lugar onde aquelas mulheres tinham sido enterradas. Eu nunca soube exatamente onde era este lugar, apesar da curiosidade das crianças, os adultos tinham medo de até mesmo tocar nesse assunto, era como um segredo entre eles, poucos comentavam sobre a morte das cinco.

Nas noites de inverno eu lembro de ter medo das histórias sobre elas, mulheres que tinham desaparecido e encontradas enterradas em algum lugar distante por uma criança que seguiu um grande cachorro negro pelo crepúsculo, todos nós desconfiávamos de que adulto hoje era aquela criança. Como todos nasciam e morriam ali, era possível sentir o peso no ar de alguém que gostaria de ter fugido antes mesmo de ter encontrado as cinco.

Entre alguns sussurros os mais velhos discutiam a causa da morte, um viajante que passou pela aldeia em uma noite longa de solstício era o maior suspeito, mas ele nunca mais foi visto. Todos buscavam sinais mas ninguém se atrevia a refazer o caminho do garoto, o túmulo delas era escondido e apenas os corajosos e loucos levavam seus ramos de flores quando se aproximava novamente o solstício.

Eu nunca vi o cão, apesar de ouvir histórias sobre ele, eu achava que ele era apenas uma história para manter as crianças distantes de assassinos viajantes em noites sombrias.

Toda a luz já tinha se esquivado para adormecer quando acordei em um pulo no meio das árvores fechadas. Era comum eu me perder pela floresta, mas nunca tão tarde, a luz era um guia precioso depois de todas aquelas histórias e mesmo com nenhum trágico acontecimento ter sequer rodeado nosso vilarejo por anos, todos procurávamos ser sensatos quando o assunto era a noite na floresta.

Eu tinha quase 16 anos quando ouvi sua respiração apressada próximo de mim, não era uma mulher ainda como dizia a minha avó e pouco sabia sobre como me proteger de qualquer desconhecido. Era inútil tentar lutar, correr talvez, mas eu corria o risco de me distanciar ainda mais do lugar seguro, onde a clareira aparecia para ser o lar de famílias que nem mesmo lembravam como tinham ido parar ali.

Eu me escondi entre uma árvore com folhas grandes e cheiro forte de madeira, aquilo me confortava de um jeito estranho, como se minha casa tivesse sido feita daquela madeira. Mas mesmo confortável eu não deixava de ouvir os barulhos da floresta que ficavam cada vez mais baixo para que a respiração dele se destacasse.

Eu conseguia ouvir os passos pelo barulho das folhas secas no chão e sabia que estava cada vez mais perto. Imaginei um gigante, um monstro com um olhar que deve ter feito as cinco mulheres se arrependerem de tudo em sua vida, mas podia sentir seu cheiro, e ele não era assustador.

Me encolhi instintivamente quando ouvi que os passos se aproximavam e eram cada vez mais, não era apenas um. Era como um cortejo angariando seguidores a cada percurso, até que eu pude vê-los e com isso começar a duvidar da minha sanidade, estaria eu dormindo? Sonhando com as histórias da minha velha avó?

As cinco mulheres caminhavam nuas atrás dele, era como se os anos não tivessem passado. Aos poucos aquele cão se transformava, parava de andar em duas patas para se transformar em um ser completamente diferente, seu corpo era mais humano, mas seus braços alcançavam o chão, suas pernas eram compridas e seus pés ainda eram patas, com garras grandes e seu rosto era como olhar dentro da total escuridão, eu não conseguia entender mas quando me dei conta, seguia o cortejo me aproximando mais a cada passo, seguindo aquelas mulheres todas tão diferente das descrições que me foram contadas.

Eles adentravam cada vez mais para a floresta e o medo ia me abandonando conforme as mulheres começavam  um canto que surgia do silêncio e ganhava cada espaço possível dentro daquela mata, era como se cada planta daquele ambiente, cantasse com elas.

Era possível entender as palavras, como se vindas de uma língua que tinha desaparecido antes mesmo do meu nascimento, mas nada mais me assustava, era como se aquela melodia me abraçasse e a escuridão se tornasse mais branda, eu conseguia ver melhor a cada passo, era como reencontrar sua casa depois de uma longa viagem, como descansar perto de quem você ama e sentir a segurança que poucos lugares tem.

Eles paravam, mas a música continuava, as mulheres começavam a fazer um círculo que quando me dei conta, eu o completava, o ser meio cachorro meio escuridão olhou no fundo dos meus olhos e eu senti como se não houvesse chão abaixo dos meus pés, eu flutuava junto com as cinco e em minha cabeça memórias que não eram minhas brincavam com meus sentimentos, me movendo de eras em poucos segundos, eu me mesclava com o vento enquanto conhecia em minha mente todos os sentimentos que aquelas mulheres já tinham sentido em sua vida, cada dor, cada alegria e cada certeza.

Quando as lembranças acabaram nós voltamos ao chão, ele segurou a minha mão e eu me sentia mais leve do que nunca, como se eu fosse mais leve que uma pena, minhas angústias não mais existiam e a  letra da música era a única coisa que sabia então continuei ao lado dele, que não era um monstro, nem cachorro, nem sequer escuridão.

Minha avó contava uma história sobre um monstro, ele aparecia à noite próximo ao lugar onde aquelas mulheres tinham sido enterradas. Nós nunca soubemos onde era este lugar, mas descobrimos que depois do sexto desaparecimento muros e cercas foram construídas em volta de todo a aldeia para impedir que você ouvisse o canto delas durante a noite e as seguisse pela escuridão.

Mas se você falar com qualquer menina, ela te confiará o segredo que todas guardam bem escondido: o chamado ficava mais alto a cada noite.

Conto by Anna Schermak
Photo by Dids from Pexels

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Anna Schermak
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Criadora do @pausaparaumcafe, social media, formada em marketing, rata de biblioteca, intolerante à lactose e a pessoas de mau humor.

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