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Literatura

[RPG] O RPG Virtual

A aurora dos anos 90 despontava no horizonte, e o RPG invadia uma terceira década, já imortalizado como o jogo da adolescência de muitos. Os anos 80 seriam lembrados para sempre pelos filmes, desenhos e jogos de tabuleiro clássicos – muitos deles persistindo até hoje nas reprises de sábados e nos remakes dos produtores – mas a nova geração já
visualizava o novo milênio, e a tecnologia era a palavra do momento.

A indústria eletroeletrônica vinha flertando com a indústria de entretenimento já há algum tempo, os fliperamas despontavam nos shopping centers, mas foram os consoles caseiros que trariam lembranças marcantes. Ter um videogame em casa era necessário para qualquer criança, ou pelo menos vizinhança! Passar as tardes na casa de um amigo com videogame, combinar campeonatos de jogos ou ligar o console escondido dos pais fez parte da infância de
muitos, uma nova geração que provavelmente não tivesse jogado ainda um RPG de tabuleiro. Os jogos de interpretação eram algo mais sério, ritualístico, e difícil ainda para os mais jovens. Ambas as gerações, no entanto, tinham seu apreço pelos jogos eletrônicos.

As adaptações dos jogos de RPG para os videogames data da já comentada Era Heroica, quando a invasão dessa temática fantástica adentrou em praticamente todas as mídias. Em 1986 The Legend of Zelda era lançado, uma próspera franquia aventuresca e fantástica que perdura até os dias de hoje. Uma versão do D&D fora lançado também no início dos anos
80 para o esquecido Intellivision e diversos outros clássicos eram lançados alterando ou acrescentando pouco de um para outro. Os criadores ainda estavam aprendendo a lidar com os jogos eletrônicos e, tão cedo seu potencial fosse explorado, logo se descobriria um novo método de jogar RPG.

Foi assim que aconteceu no final dos anos oitenta até a metade da década de noventa. Entendera-se que os jogos de RPG tornara-se uma subdivisão dos jogos eletrônicos, uma categoria à parte que contava com fãs fiéis e que deveria ser melhor trabalhada. As regras foram sendo adaptadas de uma franquia para outra, criando nichos no formato do jogo (outras subdivisões dentro destas divisões), cada uma tentando buscar a preferência de um tipo de jogador. Clássicos inovadores e viciantes surgiram nesta época, apresentando uma nova forma de se jogar videogame: não mais as fitas que não poderiam salvar o percurso do seu jogo, exigindo que ele fosse zerado numa única tarde, mas sim jogos que tomariam horas e horas e mais horas de entretenimento, puzzles a serem resolvidos e personagens a serem
evoluídos. Uma dimensão de diferentes combinações tornava-se possível a partir de regras mais complexas, o que apresentava ao consumidor não uma maior dificuldade, mas mais trabalho para que a meta final fosse concluída com perfeição.

Nasceram desta forma as imortais franquias Final Fantasy e Pokémon, com suas inúmeras versões e variações, explorando e melhorando as regras criadas por eles e para eles. Espelhavam-se ainda em conceitos básicos dos jogos de tabuleiro, abusando das “ilimitações” que os bytes de memória ofereciam às engines. O sucesso delas é inegável, visto a febre que se tornaram e ainda hoje rendem milhões de dólares para as produtoras, sendo adquiridas por muitos daqueles que nunca sequer chegaram perto de uma mesa de RPG clássico.

O novo milênio então chegou, e o RPG em si tornou-se uma forma simbiótica que se sustenta ao mesmo tempo que insere mais nutrientes nestas variadas mídias: impulsionou os filmes de fantasia em superproduções hollywoodianas, aperfeiçoou os jogos eletrônicos com histórias épicas e gráficos realistas e paradisíacos, e ainda hoje oferece livros e atualizações para os jogos de interpretação de mesa, fazendo com que os fãs das diversas formas de RPG ainda se
encontrem em multidões nas convenções anuais e nos lançamentos de novidades nas lojas especializadas. A internet ofereceu a oportunidade da interação entre jogadores do mundo todo e os MMORPG’s (multi massive on-line role-playing game – “jogo de interpretação on-line para multidões”, numa tradução livre literal) prenderam por ainda mais tempo os fanáticos jogadores.

Com quarenta anos de existência, onde muitos outros jogos de tabuleiro minguaram e foram esquecidos, é possível concluir a força daquela mera adaptação de um wargame de tabuleiro. Os orcs se enfurecem, os elfos cantam, os magos abençoam, os anões fazem um brinde com suas canecas, e nós só podemos juntar nossa voz a esse desejo: vida longa ao RPG!

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