Videogames são arte?

Videogames são arte?

Uma discussão antiga, porém, que ganha maior relevância com o passar dos anos. Se no passado foi banalizada, hoje já não pode ser mais ignorada e, aqueles que o fazem, provavelmente estão mergulhados em sua própria ignorância ou conservadorismo. Os videogames podem ser considerados uma forma de expressão artística?

Jorge Coli, em seu livro “O que é Arte” de 1995, argumenta que “dizer o que seja a arte é coisa difícil. Um sem-número de tratados de estética debruçou-se sobre o problema, procurando situá-lo, procurando definir o conceito. Mas, se buscamos uma resposta clara e definitiva, decepcionamo-nos: elas são divergentes, contraditórias, além de frequentemente se pretenderem exclusivas, propondo-se como solução única”. De fato, não é fácil descrever o que seja a arte, pois ela evoca sentimentos e estes, inequivocamente, são manifestações subjetivas. Não é possível afirmar que é arte algo que não manifesta nada em mim, certo?

Não necessariamente. No mesmo livro, o autor argumenta que a arte existe e é nomeada como tal através do discurso em volta dela. Todos nós sabemos que a Mona Lisa, Guernica, A Divina Comédia ou Vênus de Milo são obras de arte em suas respectivas áreas de importância. Nós simplesmente “sabemos” que são pelos discursos seculares em volta dessas obras. Contudo, para algumas pessoas, não passam de pinturas, escritas ou meros tratados de gesso que qualquer pessoa poderia fazer, o que nos leva a um segundo ponto sobre a arte: contexto e referência.


As obras que citei foram criadas em um determinado contexto. Guernica, por exemplo, é uma obra que faz uma crítica e retratação do período de Guerra Civil Espanhola, onde foi concebida. Se você é um(a) leitor(a) presente do Pausa, temos uma exímia conhecedora da obra de Dante Alighieri por estes cantos (piscadinha pra chefa). Para que você possa apreciar estas obras, você precisa de referência. Por isso que a arte pode ser, em partes, excludente. Talvez visitando o Cristo Redentor, você apenas se espante pelo tamanho da obra, mas se for uma pessoa religiosa e/ou conhecer a história da estátua, talvez a visita evocará sentimentos mais fortes do que a pessoa desavisada. Você pode rir hoje do filme Psycho (Psicose, 1960) de Alfred Hitchcock, achando um suspense barato e com muita exposição no final, contudo, foi O FILME que introduziu algumas das práticas que chamamos de “clichê” hoje em dia. Para sua época, foi um suspense revolucionário e que abalou audiências no mundo todo. Sabendo do contexto do filme e um pouco da história do cinema, você passa a ter um outro olhar, um de admiração e espanto, um de “isso é uma obra de arte”.

E isso nos traz aos jogos eletrônicos. O que faz de um jogo uma obra de arte? God of War (2018), Okami, Shadow of the Colossus, Silent Hill 2 entre tantos outros. Você provavelmente já discordou de mim em alguns dos títulos citados, não é? A discussão se torna mais madura pelo fato de as mídias digitais estarem cada vez mais consolidadas. Você pode, hoje, apreciar esta idosa de 87 anos chamada Concha Garcia Zaera que faz pinturas no paint que eu apenas sonharia em fazer. A arte é aquilo que meche com você, com seus sentimentos, que te tira do seu conforto. Nos exemplos citados, eu tive contínuos suspiros com os cenários maravilhosos construídos pelo estúdio Santa Monica em God of War, aprecio o estilo artístico de Okami, acho desafiante a habilidade narrativa em Shadow of the Colossus, mesmo esta obra tendo o que imagino ser uma folha de diálogo e, por fim, como Silent Hill 2 rasteja para dentro das minhas ideias e me deixa estranhamente (e intrigantemente) desconfortável.

Para responder à pergunta do título, em minha visão, videogames podem sim ser considerados obras de arte, você talvez tenha que abandonar a ideia conservadora de arte, onde apenas livros, esculturas e pinturas podem sê-la e entender a mudança do mundo e como novas formas de arte estão em pauta. Tudo bem discordar, tudo bem apontar outras formas de arte, contudo, não é mais possível ignorar a relevância dos jogos eletrônicos em nossa atual sociedade, seja em sua capacidade de entreter, de educar, de instigar, de comunicar ou, neste caso, de mexer com você.

Diga nos comentários quais jogos conseguiram tirar um turbilhão de sentimentos de você e por que. Vamos continuar a discussão.

Jhonatan Gomes
Jhonatan Gomes

Olá, meu nome é Jhonatan Ferreira Gomes. Sou formado em Psicologia pela Universidade do Sagrado Coração. Meu interesse está na aera comportamental, neurociências e aprendizagem. Sou um amante da arte visual e interativa dos videogames, além de todas as outras páreas da cultura nerd e me proponho a dialogar com você os motivos desse amor. Tenha um excelente dia e continue sendo incrível! Email para contato: jhowfg@gmail.com

2 comments

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  1. Érika

    16 de junho de 2019 at 20:11

    Achei a discussão muito interessante. Nunca tinha parado para refletir sobre o universo dos games como arte

  2. Rafael

    27 de junho de 2019 at 22:38

    Achei muito legal a ideia,de discutir o assunto de maneira precisa nos cinco primeiros parágrafos e no ultimo responder a pergunta principal do texto que é o titulo.
    Gostei também do autor dar sua opinião sobre jogos citados. e concordo com a ideia de videogame serem artes,e que não é mai possível ignorar a relevância dos jogos eletrônicos em nossa atual sociedade.

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