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Longe da Realidade

UM AVISO AMIGÃO DA VIZINHANÇA, este texto vai conter spoilers de Homem Aranha Longe de Casa. Se você ainda não viu o filme, guarde o artigo para ler depois. VOCÊ FOI AVISADO(A).

Recentemente fui ao cinema assistir ao mais novo longa do amigão da vizinhança e eu devo admitir que morri de amores pelo filme. Para começo de conversa, Mysterio sempre foi um dos meus vilões favoritos da EXTENSA galeria que o Homem Aranha dispõe. Em segundo lugar, eu realmente aprecio essa nova versão cinematográfica do herói. Ainda guardo com extremo carinho os dois primeiros filmes de Sam Raimi, especialmente o segundo, mas a Marvel conseguiu equilibrar perfeitamente a essência do personagem, com algumas pequenas ressalvas que podemos discutir em outra oportunidade. Em terceiro e, talvez mais importante, o Homem Aranha é meu personagem favorito dos quadrinhos, uma das minhas maiores inspirações quando criança, então é de se esperar que a ansiedade fique à mil quando chega um filme novo nos cinemas.

Mas hoje eu queria falar da temática do filme, algo que me bateu uma proveitosa reflexão após a baixa da poeira da ansiedade: as pessoas acreditam em qualquer coisa hoje em dia. Quentin Beck, interpretado por Jacke Gyllenhaal, diz estas palavras ao fim do filme e enfatiza essa noção ao decorrer da narrativa. Ele, como o vilão Mysterio, é um ilusionista. Mesmo com as mudanças criativas que o filme propôs, ele ainda é um personagem que brinca com a realidade e desafia a noção de Peter do que é e não é real. Como psicólogo, isso me atrai muito. A realidade é complexa demais e cada um de nós tem uma perspectiva muito íntima dela. Todas as pessoas que participam de um acontecimento podem te descrever este mesmo momento de maneiras diferentes, de acordo com suas vivências, importância dada ao contexto, repertório verbal e intelectual, etc.

Referência dada, é referência entendida

No filme, Mysterio tem a intenção de criar, de forma ilusória, uma ameaça de “nível Vingadores” e acabar com ela sozinho, mesmo não tendo poderes, e ficando famoso no processo. Ele inventa que veio do multiverso, que os elementais foram criados no espaço, que sua família morreu, dentre outras mentiras e todos acreditam. O mundo, nesta ficção, já viu de tudo e, por isso, teve seu compasso desorientado. Afinal de contas, se eu vi alienígenas, seres superpoderosos e pessoas virando pó, o que são elementais e multiverso? Só mais uma segunda-feira!

Isso te soa familiar? Eleições, tanto no Brasil quanto no mundo, repletas de mentiras, correntes de whatsapp disseminando falsas informações, pessoas negando o aquecimento global, cada vez mais adeptos de teorias da conspiração. De fato, as pessoas estão acreditando em qualquer coisa. Nos últimos anos, presenciamos uma alarmante negação à ciência e tentativa de revisionismo histórico que esta, vagarosamente, desorientando o compasso de realidade das pessoas, o que os estudiosos estão chamando de pós verdade, quando a verdade não é suficiente para aliviar o ego das pessoas, então elas decidem ignorá-la e/ou adaptá-la ao seu mundo.

Parte disso pode ser explicado pelo Efeito Dunning-Kruger, que nos explica que as pessoas de pouco conhecimento podem acreditar piamente que sabem mais que pessoas mais preparadas, o que as leva a cometer erros ou emitir comportamentos equivocados. Isso é realmente muito fácil de perceber quando falamos sobre o delírio da terra plana. Os terraplanistas tem tanta convicção que seu governo mente para eles, cria ilusões e esconde a suposta “verdade” que, para quem é leigo, podem parecer verídicos. Eles próprios, leigos, acabam influenciando outros leigos e a mentira é brutalmente mais veloz que a verdade. Os terraplanistas não estão tentando achar a verdade através do método científico, ou buscando testar novas teorias, eles só querem estar certos. Entre mamadeiras eróticas e “se tá fazendo frio aqui, não existe aquecimento global”, as pessoas estão acreditando em qualquer coisa. O Efeito Dunning-Kruger explica a situação, mas eu devo adicionar que essa onda de acreditar em tudo que se vê também se torna algo extremamente reforçador, como diria Skinner.

As pessoas querem ser aceitas, faz parte da nossa natureza social. O mundo é injusto e isso não é novidade, a educação não é de fácil acesso para a maioria das pessoas e no Brasil essa realidade é ainda mais difícil de engolir. Então, quando o complexo é difícil de entender ou aceitar, principalmente na era dos memes e do ler-o-primeiro-parágrafo-da-wikipédia, e a mentira é curta, de fácil acesso e de rápida circulação, as pessoas tendem a preferir esta que àquela. Acreditando nas mentiras, as pessoas são aceitas, tem a sensação de poder por este “conhecimento” e se mantem engessadas naquilo, não querendo aceitar que podem estar erradas, afinal, seu ego não permite isso Assim como na ficção, brilhantemente espelhada pela Marvel, nós estamos ficando dessensibilizados pelo que vemos todos os dias e estamos, desesperadamente, tentando fazer sentido das coisas e, neste processo, acabamos tendo dificuldade em discernir verdade de mentira.

“As pessoas acreditam em qualquer coisa hoje em dia”

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