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Literatura

[Resenha] As Virgens Suicidas de Jeffrey Eugenides | @cialetras

O cenário é o de um típico subúrbio americano dos anos 70. Mas são as forças de Eros e Thanatos que atuam em As virgens suicidas, envolvendo o leitor numa história original, narrada por uma espécie de coro semelhante ao das tragédias gregas.
Durante uma festa em sua casa, Cecilia Lisbon, uma garota de 13 anos se joga de uma janela do segundo andar sobre a cerca de ferro. Como uma maldição, num período de um ano, todas as cinco irmãs Lisbon cometem suicídio. Comprimidos, enforcamento, todas as formas são válidas para que, uma a uma, Lux (14), Bonnie (15), Mary (16) e Therese (17) encontrem seu caminho para a morte.
A tragédia marca tanto a rotina da vida local que uma investigação é levada a cabo pelos garotos da vizinhança. Passados 20 anos, eles reúnem um mórbido acervo de evidências, que vão desde entrevistas com parentes até diários e boletins de química. Mas os detetives amadores, determinados a descobrir qual a razão daquelas mortes, lutam para achar as peças deste quebra-cabeça que é a alma feminina.

Você deve conhecer esse nome de algum lugar, mesmo que não tenha lido o livro você já ouvir falar do filme. Sim ele foi o primeiro filme da carreira de Sofia Coppola e teve o próprio autor como roteirista. Eu assisti o filme há muito tempo atrás e como não tem ele na netflix eu não consegui assistir antes de fazer a resenha para vocês. Mas o importante é: Vamos falar do livro As Virgens Suicidas de Jeffrey Eugenides em sua nova edição publicada pela editora Companhia das Letras nesse semestre.

“Essa obrigação de ser feliz paradoxalmente nos deixa cada vez mais infelizes.” — As Virgens Suicidas

O livro retrata a opressão e a obrigação por ser feliz e o que esse estilo de vida pode fazer com cinco jovens meninas que ainda não se descobriram. Com uma narrativa bem peculiar, tendo como narradores da história cinco meninos que acabam por conhecer muito mais o que se passa com as meninas, mesmo estando do outro lado da janela, do que quem está convivendo todos os dias junto com elas.

Não é fácil nem rápido ler o livro. Apesar da escrita realmente fascinante de Jeffrey Eugenides o livro é inteirinho descritivo, você não vai encontrar diálogos como está acostumado (e do jeito que eu gosto). Tudo é descrito, é um texto inteiro sempre e sem interrupções. Isso completa a narrativa da história, dando o seu gostinho, seu jeitinho especial, mas pode incomodar algumas pessoas.

“O que temos aqui, basicamente, é uma sonhadora. Alguém que perdeu o contato com a realidade. Quando ela pulou, pensou provavelmente que voaria.” — Sobre o que leram no diário de Cecília Lisbon. As Virgens Suicidas – Jeffrey Eugenides

Nem sempre vamos ter as melhores experiencias lendo um livro. As Virgens Suicidas foram um caso à parte em minha “vida literária”. Fiquei muito curiosa para conhecer mais sobre a história, ela tem um “q” que te chama a atenção antes mesmo de realmente ler o livro. O nome te faz ficar curioso para saber como e porque essas virgens se suicidam. E me apegar a esse “como” e “porque” me fez ter que parar durante a leitura para parar de me preocupar com o “porque” e começar a ler nas entrelinhas. Qual seria o real motivo e o que o autor estava querendo dizer com aqueles suicídios? 

Você acaba descobrindo que tudo aquilo quer dizer muito mais do que “olha… cinco jovens vão se matar aqui, porque elas estão infelizes”. Isso quer dizer muito mais sobre a sociedade, sobre o comportamento e incrivelmente… sobre os meninos. Nós achamos complicado ser mulher, ser meninas… mas como será que é difícil para eles nos compreenderem? Nós entenderem?

“Soubemos como dói o vento do inverno entrando por debaixo da saia, como é sofrido manter os joelhos juntos na sala de aula, e como é monótono e irritante ter que pular corda enquanto os meninos jogam beisebol. Nunca conseguimos entender por que as meninas faziam questão de ser maduras, nem por que sentiam tanta necessidade de elogiar umas às outras, mas às vezes, depois de um de nós ter lido em voz alta um longo trecho do diário, tínhamos que combater o desejo de nos abraçar ou de dizer uns aos outros como éramos bonitos. sentimos o aprisionamento que é ser garota, e como isso torna a mente ativa e sonhadora, e como a gente acaba sabendo quais cores combinam entre si. (…) Soubemos, afinal, que as garotas são da realidade mulheres disfarçadas que compreendem o amor e até mesmo a morte, e que nossa tarefa era apenas gerar o barulho que parecia fasciná-las.
— As Virgens Suicidas, de Jeffrey Eugenides

 

As Virgens Suicidas conseguem ser cativantes, e mesmo não sendo as melhores personagens dessa história, são personagens diferentes e bem construídas com personalidades conflitantes e únicas até mesmo na hora da morte.
Um livro que você deve ler, mesmo se não for fã do estilo, é um livro tenso e um pouco pesado, mas você vai poder aproveitar uma narrativa incrível e fascinante ao ponto de ter certeza no final que o livro valeu o seu valor investido.

Com isso Jeffrey Eugenides consegue 5 xícaras de café quentinho e delicioso, ao som de músicas não aprovadas pela mãe em cima do telhado com alguma companhia que você saber quem é…

“A essência dos suicídios não consistia em tristeza ou mistério, mas em simples egoísmo.” — As Virgens Suicidas

Acho que com essa última frase vocês conseguem me entender e conseguem entender toda a essência do livro.

About Author

Criadora do @pausaparaumcafe, social media, formada em marketing, rata de biblioteca, intolerante à lactose e a pessoas de mau humor.

3 Comments

  • Eduardo
    2 de junho de 2013 at 20:53

    Esse se enquadra na categoria “livros que deram origem a filmes que não vi” e por isso tenho mais curiosidade em ler o livro.

    Quanto às descrições, pode ser cansativo; não gosto de descrições longas, mas também considero um aprendizado, pois tenho dificuldade em descrever cenas, e lendo livros assim, fico muito mais atento aos detalhes, coisa que nem sempre os diálogos proporcionam.

    Por outro lado, minha rebelde imaginação sempre faz com que eu visualize os cenários e situações de uma maneira bem diferente da que o autor descreveu…

    Quanto à história propriamente dita, chama-me a atenção tocar num assunto-tabu, que as pessoas evitam e que escritores também costumam evitar: o suicídio. E evitar prejudica a compreensão.

    Certamente que pensando na morte também estamos pensando na vida, e isso é que parece mais assustador: não estamos evitando discutir a morte, mas sim discutir a vida, o que pode haver de errado nela, ou ao menos, o que é incompatível com o que as pessoas esperam dela.

    Quanto ao elemento feminino na questão, nem Freud conseguiu desvendar as mulheres… Mas talvez o problema seja exatamente esse, a incompreensão, num mundo moldado por homens que não compreendem as mulheres.

    Diante de todo esse questionamento sobre a sociedade e o comportamento, essa última frase acaba me soando como um enigma, porque pode ser egoísmo, mas de quem?…

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  • […] [Resenha] As Virgens Suicidas de Jeffrey Eugenides | @cialetras […]

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  • Adriana
    16 de outubro de 2013 at 11:20

    Esse realmente parece um livro dificil, mas é essa dificuldade na leitura que me despertou o interesse por ele, uma leitura densa, descritiva, sem diálogos, mas que mesmo assim, impressiona e cativa! Eu não vi o filme, então vou aproveitar pra ler o livro primeiro e depois ver o filme, acho melhor assim! Excelente resenha, parabéns! 🙂

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